Ode ao desprezo

Não sei por que ainda perco meu tempo escrevendo sobre a Seleção Brasileira, mas vá lá. Me deu vontade e eu não tenho nada melhor para fazer agora.

Há muitos anos a outrora adorada Seleção vem passando por um nada discreto processo de glamourização e gourmetização, por meio do qual se dá cada vez mais importância à forma do que ao conteúdo, como vem acontecendo com tudo nesse mundo cada vez mais insosso. Se antes o jogador tinha de estar consagrado para chegar lá, hoje qualquer boçal é convocado com pompa e circunstância para ter seu passe valorizado e depois ser vendido (ou tentarem vendê-lo) por uma grana inacreditável para algum time da China ou um time lavanderia de dinheiro europeu e, assim, enriquecer os empresários que ocupam a comissão técnica naquele momento e, também, os dirigentes da CBF. Por essa razão vimos surgir fenômenos como Hulk, por exemplo, um centroavante tosco que nunca marcou um gol em partidas oficiais mas (ainda) é figurinha carimbada nas convocações da CBF. O capitão da Seleção, escolhido por sua autoridade em campo e legitimado pelo reconhecimento dos colegas, virou mais uma peça de marketing. Hoje o “cargo” é ocupado por um garoto que joga muita bola, mas que não tem nenhuma maturidade nem estofo para exercê-lo, não serve de exemplo dentro ou fora de campo.

Esse processo transformou a Seleção em um produto caro, que não é mais acessível ao torcedor. Ela passou a ser vendida em mercados premium platinum pica das galáxias e exibida em eventos corporativos. O Emirates Staduim se tornou o novo Maracanã; a China e o Oriente Médio, o novo Nordeste, onde ela sempre foi recebida com calor e carinho.

Isso foi afastando cada vez mais a Seleção do torcedor, e as trapalhadas que se seguiram só aumentaram o abismo. O itinerário louco traçado para a Copa de 2014 no qual ela só jogaria no Maracanã em uma final que só os alienados dirigentes da CBF achavam certa aumentou acirrou ainda mais a antipatia já crescente. Junto com isso, mais amistosos caça níqueis inúteis e, no meio do caminho, uma enganadora Copa das Confederações, que só serviu para jogar a poeira debaixo do tapete.

Aí veio o 7×1 e a “carta” da dona Lúcia, ainda mais constrangedora do que o placar daquele jogo, que foi até pouco. Ali chegou-se a imaginar que haveria mudança, porque do jeito que estava não podia ficar. De fato, não ficou: piorou ainda mais, o que prova mais uma vez que para baixo, realmente, não há limites.

Não sei o que foi mais patético na “renovação” proposta pela CBF no lisérgico pós Copa de 2014, se a contratação do Dunga ou a do Gilmar Rinaldi. Na dúvida, fico com os dois, porque há muito tempo eu não via uma demonstração tão descarada de alienação da CBF, uma afronta tão acintosa, uma surra de pau mole na cara do torcedor, que foi chamado de otário sem a menor cerimônia.

Agora, Dunga, que nem deveria ter vindo, se foi novamente, mas ele nem pode ser considerado o pior culpado pela campanha do Brasil nesta Copa América Centenário, ou pelo sexto lugar nas eliminatórias para a Copa de 2018 (que me parece cada vez mais distante). Ele estava em casa, levando a vida dele, não obrigou ninguém a contratá-lo. Culpado foi quem o colocou lá de volta, mesmo ciente de sua falta de aptidão para comandar um time de futebol: além de ser um treinador ruim, ele é péssimo no trato com as pessoas. Não une o time e não cativa o torcedor; ao contrário, com sua arrogância e rancor perante tudo e todos, ele só consegue a antipatia alheia.

A escolha de Dunga para treinador, agora desfeita às pressas para tentar salvar um projeto olímpico de importância superestimada (não sei por que essa secura toda por uma medalha olímpica, para mim a Seleção principal e a Copa do Mundo são muito mais importantes do que o futebol olímpico) e ganhar um pouco de fôlego, foi uma besteira própria de uma confederação cujo ex presidente está preso e o atual não pode nem fazer compras no Paraguai porque corre o risco de fazer companhia ao antecessor. Por isso, o presidente da CBF não comparece a nenhum jogo da Seleção nem participa de nenhum evento relacionado ao futebol brasileiro, que, aliás, a CBF, por absoluta falta de intimidade, faz de tudo para atrapalhar.

A situação atual, portanto, não é surpresa, novidade nem inesperada. Na verdade, se estivéssemos melhor do que isso em termos de futebol, isso seria, aí sim, uma grande surpresa. Ninguém dá mais a mínima para a Seleção. Nem as pedras jogadas nas derrotas vêm mais com o vigor e a fúria de antes. O desprezo é o sentimento dominante hoje, como percebi da conversa que tivemos com a gerente de uma loja de artigos esportivos quando lhe perguntamos se havia alguma camisa do Brasil para o João Guilherme. A resposta dela foi sintomática: “eu, não. Nem vai ter. Ninguém mais compra, tive de queimar o estoque anterior, então não vou pedir mais”.

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