Mamonas Assassinas

Poucos fenômenos pop no Brasil foram tão intensos e arrebatadores como os Mamonas Assassinas, um grupo musical formado por cinco garotos de Guarulhos, na Grande São Paulo, que apareceu em meados de 1995 fazendo música com humor politicamente incorreto e de certo modo ingênuo, com letras engraçadas e diretas, uma coisa meio Os Trapalhões, tendo cativado todos, especialmente as crianças.

O primeiro sucesso dos Mamonas nas rádios foi “Vira-vira”, uma paródia tosca e mequetrefe do ritmo folclórico português, que contava as desventuras de um casal de patrícios em uma suruba. Tudo era deboche: a melodia, a imitação tosca do sotaque lusitano dos cantores-narradores, até o “enredo” em si. Mas era engraçado e surpreendente, porque nunca ninguém tinha feito nada parecido antes.

O próprio nome da banda era uma sátira. Não, sátira não, era zoação mesmo. O vocalista, Dinho, disse em uma entrevista que o nome havia sido inspirado pelo Kid Abelha, que no início de carreira, nos anos 80, se chamava “Kid Abelha e os Abóboras Selvagens”. Ora, ele disse, se eles são os Abóboras Selvagens nós seremos os Mamonas Assassinas! E não é que o nome ficou legal?

Todas as faixas do CD dos Mamonas sacaneavam alguém. Há paródias de sertanejo, de forró, do Sepultura, dos Titãs, do Negritude Jr. (grupo de pagode muito popular no início dos anos 90, liderado pelo Netinho de Paula), todas oportunas, todas inteligentes, nenhuma ofensiva ou agressiva. E eles ainda tiveram a coragem de gravar “Sabão Crá Crá”, uma música “folclórica”, de autoria desconhecida, que as crianças cantavam no colégio. E ficou engraçado! Além disso, eles brincavam com gays (“Robocop Gay”), nordestinos (“Chopis Centis”) e as músicas de machões traídos (“Bois Don’t Cry”) exatamente como Os Trapalhões faziam. Até os infomerciais intermináveis com produtos milagrosos do Grupo Imagem (“1406”) foram alvo dos Mamonas, e ninguém reclamava.

Mas a melhor de todas, aquela que arrebatou o país, virou febre e não parava de tocar nas rádios foi “Pelados em Santos”, uma baladinha que emulava aquelas músicas tocadas por mariachis. Não acredito que haja um único brasileiro com mais de vinte anos de idade que não tenha ouvido esta canção, e mais!, que não tenha cantarolado seus versos e rido muito com ela.

Eu me lembro da primeira vez que ouvi “Pelados em Santos”. Estava no carro, indo para a casa de uma namorada, quando ela começou a tocar de repente, sem nenhuma introdução do locutor da rádio, tipo “agora com vocês o novo sucesso dos Mamonas Assassinas”, tanto que eu achei que era um comercial, uma brincadeira da rádio, sei lá. Sei que tive de encostar o carro, de tanto que eu ria (e não vem com esse papo de que isso é exagero, porque você também morreu de rir que eu sei).

E o grupo que surgiu de forma meteórica desapareceu de forma mais repentina ainda. Na manhã do dia 03 de março de 1996, um domingo, minha mãe me sacudiu na cama e falou, assustada:

Eduardo, o avião dos Mamonas caiu e morreu todo mundo!

Eu ainda nem tinha acordado, mas as palavras “avião”, “caiu” e “morreu todo mundo” me assustaram e eu pulei da cama. Depois que eu fui entender do que se tratava: o Learjet 250D que trazia a banda de Brasília errou a curva na aproximação para o pouso no aeroporto de Guarulhos e caiu na Serra da Cantareira, em São Paulo, pouco antes da meia noite do dia 02. Todos os ocupantes do avião morreram instantaneamente, causando comoção nacional – foi a morte mais chocante no Brasil desde o acidente de Ayrton Senna, pouco menos de dois antes.

O fim dos Mamonas deixou alguns legados: as reportagens sensacionalistas e apelativas, em especial as do Gugu, no “Domingo Legal”, em que qualquer coisa relacionada ao acidente ou à banda era levada a um grau extremo de dramaticidade; a Mãe Dinah, uma charlatã que fez grande fama ao dizer que havia previsto o acidente (mas só avisou que ele aconteceria depois do ocorrido), falecida em 2014; e a corrente de e-mails com fotos dos corpos dilacerados dos integrantes da banda depois do acidente. Foi a primeira vez que isso aconteceu, porque a internet ainda era novidade no Brasil, e as fotos se espalharam com velocidade espantosa – e olha que ainda não existiam redes sociais naquela época!

Hoje, portanto, faz vinte anos que os Mamonas Assassinas acabaram de forma tão abrupta. Não que, na minha opinião, eles teriam vida longa, do ponto de vista artístico: duvido que um segundo álbum fizesse tanto sucesso quanto o primeiro, e fatalmente o grupo se separaria em pouco mais de um ano. Além do mais, o tipo de humor que eles faziam é totalmente incompatível com mundo politicamente correto de hoje, que matou Os Trapalhões, Casseta & Planeta e quase acabou com o Marcelo Adnet. Aqueles eram outros tempos, em que a diversão de um não era ofensa a outro e que a “honra subjetiva” não era recuperada com indenizações milionárias. Tempos bem mais divertidos, sem dúvida.

 

3 comentários sobre “Mamonas Assassinas

  1. Queria ter nascido nessa época do ”politicamente incorreto”.Credo,hoje em dia se alguém canta alguma coisa do tipo,já taxam de preconceituoso (Tipo aquela ”só não pode dançar homem com homem nem mulher com mulher”).Sem ofensa,pra mim é mimimi.

    Você teria se divertido. E eu concordo inteiramente com você.

  2. Clara, a gente podia fazer piada dos estereótipos de padres, papagaios, negros, judeus, portugueses, japoneses, políticos, e ninguém ficava ofendido, porque sabia que não era verdade (ou era e eles tinham orgulho da tal verdade). Talvez o humor tenha se degradado porque hoje as coisas se tornaram verdade e ninguém mais se orgulha delas…

    Faço coro.

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