Papo de divã

Domingão de sol, tempo bom, coisa linda, maravilha, então partiu todo mundo para a piscina do clube. Fomos nós três mais o Cauê e o Davi, que estavam passando o dia com a gente. Muita farra, diversão e brincadeiras, além de algumas altercações típicas da idade. Uma tarde agradável, sem dúvida. Mas todo carnaval tem seu fim, e chegou a hora de sair, então eu levei os três para o vestiário masculino para tomarem um banho rápido e trocarem de roupa, porque, como eles já haviam acertado, depois da piscina viria o futebol.

No vestiário, para ganhar tempo e evitar mais bagunça, eu resolvi improvisar uma competição: quem se vestisse primeiro ganharia dez pontos, o segundo, cinco e o terceiro, zero. O Cauê, que é muito compenetrado, nem discutiu e começou a se arrumar sozinho; o Davi também, mas bem mais devagar do que o Cauê. Só João Guilherme continuava brincando, correndo, rindo e implicando com os amigos.

Como era esperado, Cauê ficou pronto rapidinho (até amarrou as chuteiras) e começou a tripudiar dos outros dois, se vangloriando dos dez pontos que recebeu pela “vitória”. Davi tinha vestido camiseta e calção, mas se enrolou com as meias e não sabia calçar as chuteiras, por isso eu o ajudei. Mesmo assim ele recebeu os cinco pontos pelo segundo lugar, porque João Guilherme…

João estava totalmente alheio a qualquer coisa que acontecia ao redor. Corria nu pelo vestiário como se a vida dependesse daquilo. E não adiantou Cauê e Davi repetirem que ele ficaria em terceiro lugar na “disputa” e não receberia ponto nenhum. Eu mesmo tive de arrumá-lo todo depois de ter terminado com o Davi, senão ele continuaria na brincadeira sabe-se lá até quando.

Pouco depois, quando já estávamos a caminho da quadra, ele me perguntou, com uma carinha tristonha, se era verdade que ele tinha ficado em último na competição de se arrumar e tinha levado zero ponto. Eu, que nem me lembrava mais da história, confirmei que sim e fiquei até assustado com a cara sentida que ele fez. Ele estava triste de verdade.

Como costumo fazer nessas horas, agachei na frente dele e, olhando bem nos olhos, expliquei que era uma brincadeira, que eu tinha inventado a competição só para eles se arrumarem rápido, senão eles demorariam muito tempo no vestiário mas que ele também tem de entender que as regras estão aí para ser cumpridas, e que a regra do jogo era que quem se arrumasse por último não receberia ponto nenhum, então se ele quisesse receber algum ponto teria de ter se esforçado para não ser o último mas não era para ele levar aquilo tão a sério.

Ele disse que entendeu e seguiu para a quadra jogar bola, mas eu fiquei com a pulga atrás da orelha: será que eu peguei pesado e estou estimulando uma competição excessiva entre as crianças (o que, infelizmente, é inexorável e elas estão enfrentando cada vez mais cedo) ou foi só uma brincadeira mesmo, e João Guilherme, que é dramático mesmo, acabou reagindo mal? Não tenho resposta agora, e talvez seja só neurose minha, mas eu não quero estimular a formação de crianças competitivas e desesperadas.

Um comentário sobre “Papo de divã

  1. Certa vez eu dei uma dura na Felícia porque ela não queria se despedir da minha tia (pessoa de quem a Felícia gosta muito) por preferir ver televisão. Minha tia, depois, em off, perguntou se o que eu fazia estava certo. Respondi que não sabia, só o tempo iria dizer.

    João faz isso também, como você já deve ter reparado. Acho que a resposta deve ser exatamente essa.

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