Perdeu, Playboy

A primeira Playboy que eu comprei foi a de fevereiro de 1990, que trazia Mara Maravilha na capa. Na época eu tinha 14 anos e a compra exigiu a ajuda de um amigo por causa de um surto de ética do dono da banca de jornais, que não quis me vender a revista por me achar muito novo para ver mulher pelada.

Era pra isso que se comprava a Playboy: ver mulher pelada. Basicamente, era para isso que ela existia. E na minha adolescência/juventude, a revista estava no auge, trazendo nas capas as mulheres mais bonitas, gostosas e desejadas do Brasil. Por isso muitas outras foram para casa escondidas na mochila depois daquela de fevereiro de 1990, e eram tratadas como tesouros que eu escondia no fundo de gavetas ou no fundo do armário do meu quarto na certeza juvenil de que ninguém as encontraria.

Capa Playboy 02-1990

A primeira “Playboy” a gente nunca esquece

À medida que eu crescia, comecei a perceber que, além da mulherada, a Playboy também apresentava ótimas entrevistas (que eram a desculpa cara de pau que muita gente usava para comprar a revista), e comecei a apreciar o outro conteúdo que ela trazia. Mas a prioridade sempre foram as garotas da capa (se bem e alguns ensaios secundários conseguiam ser ainda melhores que os das capas). E assim a vida foi seguindo.

Só que, com o tempo, a coisa desandou. Os ensaios fotográficos começaram a ficar pasteurizados, previsíveis e sem graça e o perfil das capas mudou – antes só posavam para a Playboy mulheres famosas, bonitas e desejadas pelo público, de repente a revista virou reduto de “famosas quem?”, ex-BBB, bailarinas do Faustão e panicats, quer dizer, antes as mulheres ficavam famosas para sair na Playboy, hoje elas saem na Playboy para ficar famosas. Além disso, os próprios ensaios, que antes eram elegantemente eróticos, passaram a variar entre o constrangedoramente vulgar, com mulheres que querem aparecer, e o irritantemente recatado, em que as fotografadas parecem ter vergonha de tirar a roupa.

Isso é uma coisa que me irrita, e o que vou falar agora não tem nenhum conteúdo sexista ou machista. Vamos ao juridiquês: um contrato é um acordo de vontades manifestadas de forma livre e desimpedida em que duas pessoas assumem direitos e obrigações. No caso que estamos discutindo, uma das partes é a modelo, que se compromete a exibir seu pretensamente belo corpo nu para ser fotografado, mediante pagamento de cachê; a outra parte é a revista, que, por sua vez, se compromete a pagar o cachê negociado e publicar as fotos da modelo em uma de suas edições mensais, em todo o território nacional. Então a modelo concordou em ser fotografada nua, e a revista concordou em pagar pelas fotos. Ao mesmo tempo, o consumidor da revista celebra um contrato de compra e venda com a editora: ele paga (por assinatura ou nas bancas) para ver, basicamente, a modelo da capa nua (em que pese seu eventual interesse por outras matérias que possam formar a publicação). Então uma revista de mulher nua que não traz fotos de mulher nua (ou, por outra, traz fotos de mulheres que não estão nuas, ou ainda, de mulheres que, apesar de estarem nuas, fazem poses que não permitem que os leitores efetivamente vejam o que querem ver – vocês entenderam) não é só sem sentido, mas também não tem amparo jurídico e é uma violação ao direito do consumidor, que não recebe do fornecedor o produto que adquiriu. Eu já comprei edições que, se pudesse, colocaria de volta no plástico e  devolveria ao jornaleiro, exigindo meu dinheiro de volta.

Não são só os ensaios fotográficos que têm má qualidade, o conteúdo da revista em geral piorou muito. Em suma, o produto, cujo preço alto se justificava pela qualidade, não se justifica mais. O que era caro mas bom se tornou caro e ruim. E a concorrência, que antes era fraca e limitada, hoje é irresistível, com a internet. Então, por que alguém pagaria muito por algo que ficou monótono, repetitivo e desinteressante quando pode conseguir coisa melhor na quantidade que quiser, quando quiser e onde quiser e o melhor, de graça?

Por isso, não fiquei surpreso quando soube da decisão da Editora Abril de deixar de publicar a Playboy brasileira a partir de janeiro de 2016 – a última edição da revista será a de dezembro de 2015, cuja capa ainda não foi anunciada. A própria Playboy americana já havia anunciado que não publicará mais ensaios de mulheres nuas no ano que vem por causa da concorrência com a internet, o que indica ou uma mudança em seu modelo de negócios ou que o gato subiu no telhado por lá também.

A Playboy fez a minha alegria (e a de muita gente também) por muitos anos, foi ícone cultural, criou tendências, ditou comportamentos e até criou o termo “playboy”, usado no mundo todo. O “mundo de Playboy” era onde todo mundo queria estar, as festas do “Click” eram as noitadas VIP do VIP, mas a revista ficou velha, chata e ultrapassada. Um produto ruim e caro, que realmente não tem como se manter. Por isso ela vai acabar depois de quarenta anos e quatro meses. E, tirando alguns comentários aqui e ali, mais saudosistas do que qualquer outra coisa, ninguém parece dar muita importância para o fato, o que mostra que a publicação não tem mesmo mais lugar atualmente. Espero só que a última capa valha a pena e não seja só mais uma das tranqueiras às quais ela se habituou Mas, francamente, duvido muito.

2 comentários sobre “Perdeu, Playboy

  1. A gente podia fazer um bolão de quem vai ser a capa da última edição…

    Podemos sim, mas nem sei em quem apostar.

  2. Pingback: Star Wars, Episódio VII: O Despertar da Força | Bobeatus Sunt...

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