Banguela

Eu lembro que os meus dentes de leite começaram a cair (notem bem: começaram) lá pelos sete anos de idade – há fotos que comprovam isso, mas nem precisava, porque eu confio na minha memória. Mas essa geração é ansiosa em tudo, inclusive na troca dos dentes de leite pelos definitivos. Por isso eu não me impressionei (muito) quando os amigos do João Guilherme, todos na faixa dos cinco anos, começaram a falar que estavam ficando com os dentes moles, e eventualmente os dentes acabaram caindo, deixando todos com aquele simpático sorriso banguela, que era exibido com orgulho pelas crianças e seus pais.

Com João Guilherme, porém, a coisa foi diferente. Enquanto os amiguinhos perdiam um, dois, até quatro dentes, os dele estavam lá, inabaláveis. Isso começou a deixá-lo incomodado, eu acho que ele estava se sentindo meio excluído, fora de um grupo no qual todos os amigos já estavam. Tanto que ele começou a dizer que os dentes estavam ficando moles só para se inserir, mas não havia nenhum dente mole, e ele também cada hora mostrava um dente “mole” diferente.

Mas aí, um dia…

Um dia ele apareceu de boca aberta e com o dedo em um dente da parte de baixo da boca. Falou, sério:

– A-ai, exe en-te tá i-ando mo-e.

Na hora eu não acreditei, porque toda hora ele fazia aquilo. Fingi que acreditei mas ele insistiu, ainda com o dedo no dente:

– É é-io, ai! Oiaqui!

Coloquei o dedo no dente, mexi com cuidado e gelei. Estava mole mesmo. E agora?, pensei, quem é que vai arrancar esse negócio? Olhei pra Fê, que disse, com toda a calma:

– Nem olha pra mim, morro de aflição desse negócio.

Aí eu resolvi tomar uma atitude muito madura com relação ao assunto: fingi que não estava acontecendo nada e deixei que a natureza se encarregasse disso. E ela não só se encarregou, como foi generosa: ele estava passando um fim de semana na casa do Cauê quando o dente caiu, longe de mim e da Fê. Meio chateado por não estar com ele na hora mas também um bocado aliviado por não ter presenciado a cena (e evitado um possível vexame), recebi pelo WhatsApp a foto do novo banguela do momento, feliz da vida porque finalmente estava igual aos amigos de dentição desfalcada.

Banguela!

Banguela!

Um comentário sobre “Banguela

  1. Da próxima vez chama a sua mãe. Ou a sua irmã.

    Minha irmã até pode ser. Minha mãe… eu me lembro muito bem. Melhor não.

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