Não matarás

Um ser humano não deve matar outro. Ponto. Não existem motivos que justifiquem o assassinato de uma pessoa – trânsito, racismo, xenofobia, rivalidade esportiva, dívidas, ódio, ressentimento, desilusão sentimental, intolerância religiosa. As mortes no trânsito selvagem do Brasil, ou as execuções nos morros cariocas e na Baixada Fluminense (feitas tanto pelo tráfico quanto pela PM), ou os assassinatos de negros, mulheres, gays, ou os mortos em brigas de torcidas em estádios ou fora deles, ou qualquer situação em que uma pessoa mate outra, todos são igualmente revoltantes e injustificáveis.

Por isso não comparo o acontecimento em Paris nesta semana, em que doze pessoas foram assassinadas por um grupo armado. Se esse evento tivesse acontecido em Nova York, na Baixada ou em uma favela de São Paulo, para mim teria o mesmo significado: uma tragédia. Essas pessoas trabalhavam em um periódico que publicava charges, algumas das quais satirizavam o islã, o que provocou revolta nos muçulmanos, e motivou um grupo de alucinados a provocar esta atrocidade.

Neste caso, pessoas foram mortas porque estavam trabalhando, fazendo humor, mas tanto faz: se elas tivessem sido mortas por estarem usando camisas do Vasco, ou do Flamengo, ou por serem gays, ou por serem negros, para mim seria tão horrível e revoltante quanto. Essas barbaridades trazem uma mensagem direta: calem-se os que fazem coisa parecida, ou o mesmo acontecerá com vocês. Trazendo isso para outras realidades, é dizer: “parem de torcer para os seus times”, ou “reneguem a sua opção sexual”, ou ainda “rejeitem sua condição de humanos”. É o cerceamento da liberdade pelo repúdio de alguém à opção de outrem em ser ou fazer o que quiser; é a rejeição e o desprezo à vida alheia que tem sido a tônica deste mundo nos últimos anos.

A chacina de Paris teve origem religiosa. É a religião renegando o próprio mandamento. Não se deve matar, já falei, muito menos matar em nome de um deus (de qualquer credo) que duvido que aceite ou incentive atitudes como essa. Não acredito que o Corão, como qualquer outra escritura sagrada, admita o extermínio da vida humana. Acontecimentos como o da última quarta feira são coisas do homem, é uma decisão de de quem, por algum motivo, prefere a agressão à busca de uma solução. Acho natural, até compreensível, ficar puto da vida quando alguém diminui a importância de qualquer coisa ou pessoa a que se dê valor, como a religião. Mas quando isso acontece, que se discuta, argumente ou busque solução junto às autoridades competentes, não se tome atitudes extremas como chacinar pessoas. É como em uma discussão em que alguém resolve apelar: perdeu a razão, acabou, já era.

Por isso, por mais que se queira discutir uma possível “injusta provocação” pelas charges, esse argumento para mim não cola porque nada disso justifica o crime em Paris. Quem invadiu a redação do “Charlie Hebdo” apelou, perdeu a razão, não tem desculpa, fez isso porque quis, não conseguiu resolver a questão de outra forma. São assassinos. Pensar diferentemente disso, para mim, é colocar a culpa nas próprias vítimas.

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