Meu amigo porteiro

Tenho conversado muito com o Leandro ultimamente sobre a geopolítica condominial, mais especificamente sobre a identificação das figuras mais importantes do condomínio e o relacionamento com elas, para que o morador ocupe um lugar de destaque na cadeia alimentar edilícia e tenha uma vida tranquila. Como bom garoto do subúrbio, ele passou a vida toda morando em casa, de modo que a recente mudança para um edifício de apartamentos ainda lhe causa certa estranheza, especialmente em relação ao convívio social no ambiente do prédio. Não é para menos: quem mora em casa vive em uma ilha, e guarda distância segura dos vizinhos, e, na mudança para um apartamento, a súbita proximidade com várias outras pessoas, que estão separadas entre elas apenas por paredes, além da convivência quase ostensiva, especialmente os encontros em corredores, elevadores e áreas comuns do prédio tende a se tornar opressiva e um tanto assustadora. Como eu trilhei o mesmo caminho há mais tempo do que ele, já acumulei alguma experiência no assunto e resolvi falar a respeito.

Após profunda análise empírica dos aspectos sociopolíticos do assunto, estou convencido de que de toda a fauna existente em um prédio, existe uma figura que se destaca das demais em razão de sua própria função, que lhe garante uma posição privilegiada no substrato social, garantindo-lhe controle de toda a vida do condomínio, inclusive a sua, querido leitor, não se engane; nada lhe escapa, ele tudo sabe e tudo vê, mas só a alguns poucos privilegiados ele concede a honra de partilhar algumas partículas de seu conhecimento.

Falo, é claro, do porteiro.

O porteiro é a alma do prédio, especialmente os que trabalham há muitos anos em prédios velhos. Ele é a eminência parda, o centro do poder, o Gorilão da Bola Azul, aquele que realmente conduz os destinos de todas as almas que estão sob sua esfera de influência, ou seja, os moradores. Os porteiros mandam mais que os síndicos, e estes, em sua maioria, sabem disso, especialmente os mais longevos no cargo, ainda que, formalmente, perante os condôminos, eles neguem o fato, o que alguns moradores educadamente fingem acreditar.

Por conhecerem sua importância e seu poder, os porteiros ficam à vontade para desempenharem suas funções de controlar a vida de todos no prédio, na rua e, ocasionalmente, no bairro. Alguns são manobristas, bombeiros hidráulicos, eletricistas, peões de obra e outros até levam as crianças na escola. Os moradores reconhecem essas funções, e as demandam frequentemente. Afinal, quando há uma torneira pingando, quem você chama? Ou quando você precisa consertar uma tomada? E instalar o ventilador de teto, ou o ar condicionado? E furar aquela parede para pendurar um quadro? Sem falar naquela demãozinha de tinta rápida na parede, no conserto da descarga, na ajeitada do piso quebrado da cozinha, do taco que se soltou no piso da sala. Enfim, seja qual for a necessidade do morador, o porteiro pode resolver.

Um edifício não é viável sem um porteiro, mas o contrário também é verdadeiro. Porque apesar de seus multi talentos, o porteiro só consegue exibi-los dentro do seu ambiente, que é o prédio. A relação porteiro-prédio forma um ecossistema tão perfeitamente equilibrado que qualquer distúrbio vai atingir todos os moradores. Não nos iludamos: todos serão afetados pelo desequilíbrio no binômio edifício-porteiro; ainda que haja graus de sofrimento diferentes, ninguém sairá incólume.

Por isso, a primeira pessoa a quem se deve cativar em um edifício é o porteiro. E não estou falando de agradá-lo com dinheiro, isso todo mundo faz. Porteiro se cativa com gestos, além da grana. É com a simpatia, com um agrado. Ele deve ser cortejado, deve ter sua importância ressaltada sem puxassaquismos. Ele deve ser bajulado sem exageros e, claro, a caixinha de ano novo deve ser boa o suficiente para ele saber quem você é (pense nisso como um investimento). Isso deve ser feito em um processo cauteloso mas decidido, até que ele saiba não só seu nome, mas também seu sobrenome, que, no protocolo condominial, significa seu nome seguido do número do seu apartamento, por exemplo, “Eduardo do 701”. Quando isso acontecer seu sucesso estará garantido, seu prédio se tornará uma grande área VIP e seu porteiro será seu próprio concierge, para seu conforto.

2 comentários sobre “Meu amigo porteiro

  1. Não esquece a função essencial de lavador oficial de carros. No meu condomínio, existe um cartel formado entre os porteiros para lotear os carros dos condôminos e tabelar os preços. Serviço “profissional”. E ficam com raiva dos condôminos traíras que se recusam a aderir ou tentam desrespeitar o cartel.

    Verdade, tinha esquecido disso. No meu prédio os moradores também estão loteados.

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