Lá fui eu de novo

Vocês se lembram que, quando a dentista do João Guilherme disse que ele teria de fazer um tratamento de canal por causa de uma bolada que ele levou na cara e estropiou um dente, eu falei que não tinha nenhuma condição de ir devido ao medo que eu tenho de dentista? Pois é, o tratamento começou nesta semana, e adivinhem quem estava lá com ele?

Isso só pode ser pessoal. Ou a Fernanda realmente não dá a mínima para o meu sofrimento, ou ela deliberadamente quer me sacanear, porque não é possível que tudo funcione tão perfeitamente organizado de modo a não restar alternativa para levar o João ao dentista além de mim, o pai apavorado mas estoico e resoluto.

Dessa vez foi complicado. A consulta atrasou mais de uma hora, porque a criança que estava sendo atendida antes do João estava apavorada. Gritava, chorava, se debatia e até chegou a fugir da cadeira, para desespero da mãe e da dentista – deixo claro aos detratores que, por mais medo que eu tenha, isso eu nunca fiz! Era uma mistura de barulho do motorzinho, choro da criança, gritos da mãe e súplicas da dentista, o clima estava tão pesado que eu só queria ir embora. Só João Guilherme estava alheio a tudo aquilo, jogando videogame como se nada mais existisse no mundo. Em determinado momento, em que o menino na cadeira gritou mais alto, João levantou os olhos do tablet por um instante, depois os baixou de novo balançando a cabeça com ar de desprezo, para meu espanto.

Quando chegou a vez dele, Juliana, a dentista, foi até a sala de espera para buscar o João, já sabendo que eu não entraria na sala. Ela olhou para mim e perguntou se estava tudo bem, e eu respondi que sim. Ele entrou e começou. Eu a ouvia contar historinhas para ele, fazer elogios como “olha que lindo!”, “muito bem, que homenzão!” e tentava me distrair lendo uma revista, até que ela ligou o motorzinho. Gelei, porque era a primeira vez que ele encararia a famigerada, indigitada, nefanda e funesta broca, mas ele nem se abalou.

No final, ele voltou para a sala de espera para me encontrar feliz e saltitante, e concluí, aliviado, que minha missão de não deixá-lo ter medo de dentista está cumprida. A Juliana me perguntou como eu estava; percebi que tinha suportado bem aquilo tudo – foram uns cinquenta minutos de procedimento – e respondi que estava legal, que não ia precisar de socorro. O procedimento ainda não acabou, ela precisa de mais um dia para terminar tudo, mas dessa vez eu marquei a consulta para as quatro da tarde e não quero nem saber!

Um comentário sobre “Lá fui eu de novo

  1. Acho que você tem algum trauma desse negócio. Eu encaro o dentista como o JG…

    Eu tenho sim, mas minha memória é seletiva para essa situação e eu não consigo me lembrar o porquê de tanto medo.

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