Sobre aquela manhã de domingo

– Ih, filho. Ele morreu.

Eu nunca torci para o Ayrton Senna, e isso não é segredo para ninguém. Não era por implicância adolescente, ou uma boba manifestação particular de independência ideológica, ou por querer ser diferente. Só não torcia por ele, não vibrava de emoção a cada vitória, não sentia minha alma lavada naquelas “inesquecíveis manhãs de domingo”, não me achava melhor que os outros por ser do mesmo país que Ayrton Senna. Tinha meus pilotos preferidos na Fórmula 1, como Mansell e Piquet e quem quer que pilotasse a Ferrari, mas torcer, mesmo, eu torço pro Vasco.

Por isso, eu não achei nada de mais quando a Williams número dois passou reto na curva Tamburello, no autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, cidadezinha perto de Bolonha, e se arrebentou no muro. Achei que era mais um dos muitos acidentes feios que eu já tinha visto nas pistas, nos meus até então sete anos de cobertura automobilística informal. Pô, a categoria é segura! Fazia oito anos que ninguém morria na pista. Cinco anos antes o Gerhard Berger tinha batido do mesmo jeito na mesma curva e o carro até pegou fogo, e no fim do dia estava dando entrevista, o Senna tem 34 anos, é novo, tem físico de atleta, é o melhor do mundo, está no melhor carro, como assim ele morreu?!

– Morreu nada, mãe! Alá, ele se mexeu.

Senna tinha feito tudo para correr na Williams em 1994. No ano anterior ele repetia insistentemente que que só na Williams ele teria condições de ser competitivo, que ele correria para a equipe até de graça e coisas semelhantes. Foi um ano de reclamações, mas, por outro lado, talvez tenha sido o melhor ano dele na Fórmula 1, em que ele demonstrou de forma definitiva por que era um dos maiores. Quando ele finalmente assinou o contrato, pronto, o futuro do Brasil na F1 estava salvo, diziam todos. Mais vitórias e títulos viriam, a musiquinha da bandeirada ainda tocaria muitas vezes alegrando as nossas manhãs de domingo.

Mas não. O regulamento técnico havia mudado e toda a eletrônica embarcada que tornava carros da equipe imbatíveis nos anos anteriores, como controle de tração e, principalmente, a suspensão ativa, fora banida. O Williams FW16 não era bom, e Senna tinha abandonado as duas corridas anteriores: na primeira, no Brasil, ele rodou quando estava em segundo, tentando alcançar o Schumacher, o que não aconteceria porque o alemão era sistematicamente mais rápido que ele durante toda a prova; na segunda, em Aida, no Japão, bateu na largada. Em Ímola, no momento da batida ele era seguido de perto por Schumacher, e eu acho que a ultrapassagem seria uma questão de tempo.

– É por causa disso mesmo que eu estou dizendo que ele morreu. Esse movimento é um espasmo involuntário que indica dano cerebral grave. E olha a posição dos pés dele. Se já não está morto, vai morrer em minutos, não tem jeito.

A frieza e objetividade da mamãe comentando os instantes pós acidente, em casa, ao vivo, meio que me deixaram em transe. O fim de semana da corrida vinha sendo surreal: na sexta, a batida horrorosa do Barrichello, que milagrosamente não sofreu nenhum ferimento sério; no sábado, Roland Ratzenberger morreu em um acidente na classificação; no domingo, na largada, uma batida forte em Pedro Lamy provocou a entrada do Safety Car e, durante a corrida, veio o acidente na Tamburello e, mais tarde, Michele Alboreto atropelou um mecânico no box. Tudo o que podia dar errado deu, com sobras.

– Tem certeza, mãe?

Segundo as investigações oficiais, a barra de direção do carro não aguentou a força aplicada sobre ela quando o volante foi virado para a esquerda e quebrou. Segundo dizem, para que o carro fosse adaptado ao modo de pilotagem de Senna, cujas mãos ficavam machucadas de tanto raspar na parte interna da carenagem durante a pilotagem, ela teve de ser alongada; para isso uma peça como uma luva de cano foi utilizada para emendar a extensão da coluna, e foi nesse ponto que a peça se rompeu. O carro, então, seguiu reto e bateu na parede em um ângulo tal que, talvez por puro azar, fez com que uma parte do braço da suspensão dianteira direta do carro atravessasse o capacete do piloto e acertasse sua cabeça pouco acima do olho direito. A morte deve mesmo ter sido instantânea.

– Tenho. Ele morreu. A imprensa pode até ficar embromando, soltando as notícias aos poucos, naquele esquema de “o gato subiu no telhado”, mas é só pra preparar o público. O Senna morreu.

Em primeiro de maio de 1994, eu não tinha internet nem tinha tevê por assinatura em casa. As informações que recebíamos vinham dos boletins da Globo, via Roberto Cabrini, e pelo rádio. Nesse meio tempo saí de casa para encontrar um amigo que ia almoçar conosco em casa, e, no caminho, ia ouvindo o rádio, que não dizia muito, porque as notícias demoravam a chegar. Mas lembro que os boletins extraordinários que se seguiam tinham mesmo esse tom de preparar todos para o pior.

Quando nos encontramos, a primeira coisa que o tal amigo, que estava tenso, com os olhos arregalados, me disse foi:

– Como ele está?

– A mamãe disse que se ele ainda não morreu, vai morrer logo.

– Não tem jeito?!

– Parece que não.

Ele ficou em silêncio, com o olhar perdido, sem saber o que dizer. Eu comecei a ter noção da gravidade e da extensão de tudo aquilo para o público em geral. Em maio de 1994 o futebol era um esporte que estava tentando recuperar o prestígio internacional de antes – o esporte da moda era o vôlei, veja só. Era ano de Copa, e a Seleção estava desacreditada, depois de se classificar no sufoco sobre o Uruguai com dois gols de Romário, convocado de última hora por pressão popular; a economia estava em frangalhos, e vivíamos a transição da URV, na expectativa para mais um plano econômico, o Real; a política e a democracia buscavam se arrumar depois da bagunça causada pelo impeachment do ex-presidente Collor, um ano e meio antes. O país estava com a auto estima baixa, e nesse cenário Senna surgia como o Brasil vencedor, que dava certo, que aparecia para o mundo, o orgulho da nação. Ele era “o” Brasil.

Eu nunca fui nessa onda ufanista, e não vou ficar falando sobre Senna ser isso ou aquilo. Para mim, o melhor texto já escrito sobre ele é este aqui, ao qual nada há a acrescentar. O que me interessava é que o cara era muito bom no que fazia, e não é porque eu não torcia que eu não posso reconhecer que ele pilotava demais. Não era o semideus em que o transformaram, mas era um grande esportista, que ainda tinha o que contribuir para o automobilismo e não devia terminar daquela forma. Mas talvez a morte de Ayrton Senna tenha sido a maior contribuição que ele poderia dar ao esporte que lhe deu tudo e lhe tirou a vida. Algo que nenhum outro piloto que morreu nas pistas, campeão ou não, provocou: uma revolução de segurança sem precedentes, nos carros e nas pistas (com erros e acertos), que faz com que há vinte anos o automobilismo não presencia nada parecido com aquele fim de semana de 1994, ainda bem. O automobilismo é um esporte de risco, mas não pode nunca ser um esporte fatal.

2 comentários sobre “Sobre aquela manhã de domingo

  1. Eu não tive o parecer técnico de um médico do meu lado nesse momento, mas lembro também de cada passo que dei naquele dia, desde a corrida até o momento em que o Cabrini anunciou a morte dele. Lembro até de o Cabrini dizer “uma notícia que nós jamais gostaríamos de dar”, após anunciar que ele havia morrido.
    Vai ser assim a cada cinco anos?

    Foi isso mesmo que o Cabrini disse, também lembro. Acho que, pelo andar da carruagem, vai continuar a ser assim por mais do que cinco anos. Nâo deixam o cara descansar em paz.

  2. Aliás, eu, se fosse o Bernie Ecclestone, marcaria uma corrida em Ímola daqui a cinco anos. Imagina a jogada de marketing…

    Com bolo na Tamburello.

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