Evoluindo o pensamento

Eu antipatizei com a Brazuca antes mesmo de conhecê-la: só de ouvir o nome dela já fiquei irritado, em parte por causa da ideia mequetrefe de “homenagear” os brasileiros com uma palavra óbvia e cretina, em parte por causa de seu evidente erro de ortografia – “brasuca” se escreve com “s”, porque vem de Brasil, que, por sua vez, vem de “brasa”, mora?

(É, leitor incrédulo, é isso mesmo: nossa pátria amada, idolatrada, salve, salve! foi batizada com este nome varonil por causa da coloração avermelhada, que lembrava carvão em brasa, da madeira do pau-brasil, árvore que existia em abundância na mata atlântica desde os tempos mais primórdios da nossa civilização. Se você não sabia disso, de nada.)

Aí, no fim do ano passado, eu vi a carinha da Brazuca, e não fui nada gentil com ela. Achei-a feia, para dizer o mínimo, “criada em escritórios de marqueteiros que nunca jogaram futebol”. Cheguei até a compará-la com a Jabulani. Relendo o que escrevi na ocasião, admito que posso ter pego um pouco pesado.

Mas nada como o tempo para nos fazer ver as coisas sob outra perspectiva. Eu costumo brincar dizendo que advogado não muda de ideia, mas sim “evolui o entendimento” sobre determinado assunto, e, no meu caso, minha evolução de entendimento sobre a Brazuca foi motivada pelo (sempre ele) João Guilherme.

Por algum motivo que não consigo compreender, João Guilherme se encantou pela Brazuca. Só falava dela, me chamava sempre que a via na televisão, revistas, jornais, outdoores, no álbum da copa. Sempre que a via em uma vitrine ele parava e ficava contemplando a Brazuca, embevecido. Pode ser que o marketing da Adidas tenha dado certo, pode ser mesmo gosto pessoal, mas não adianta muito ficar aqui tecendo teorias para explicar a evidente paixão de JG por aquela bola. O fato é que tanto interesse acabou me convencendo a comprar uma Brazuca para ele.

Mas quase desisti quando entrei na loja e a etiqueta de preço se juntou ao meu ceticismo: a Brazuca vem em uma caixa bacanuda e imponente, ostentando o inacreditável preço de quatrocentos reais. Eu disse QUATROCENTOS REAIS por uma bola de futebol! Eu olhava para a Brazuca, para a Fê e para o vendedor, esperando alguém me dizer que havia algum engano, mas o máximo que ele me disse foi “é pra presente?”. Agradeci e saí da loja meio puto com o preço, meio chateado porque o João não teria uma Brazuca, mas, ao passar por outra vitrine, percebi, em uma cesta, várias delas a oitenta pratas, cinco vezes menos do que a outra. Pensei que fossem piratas, mas aí entendi a jogada: existem duas versões da bola, a oficial, que vem sendo usada em vários jogos durante o ano e será usada na Copa, que custa os tais 400 mangos, e uma versão “doméstica”, também oficial, feita pela Adidas, mas de concepção mais simples. Uma bola comum, com a pintura da Brazuca. Aí sim.

Levei a Brazuca pra casa, embrulhada para presente, pensando nas críticas que eu havia feito sobre ela, e fiz uma surpresa para JG. E a alegria dele ao ver a bola foi daquelas que enche o coração de um pai de orgulho. Ele pulava, cantava, chutava ela na parede, queria jogar bola na sala mesmo. Até dormir abraçado com a Brazuca ele dormiu. Na manhã seguinte ele me puxou para a quadra para jogarmos futebol com ela, e ontem ele a levou para a escola, pra jogar com os amigos na aula de educação física!

Agora, olhando melhor… não é que essa Brazuca até que é simpática?

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