Robocop

É uma sensação engraçada ir ao cinema para ver o remake de um filme que eu também vi no cinema, 27 anos atrás. Dá a impressão de que o tempo está correndo mais rápido do que devia. Eu lembro que, quando vi o “Robocop” original, lá em 1987, fiquei ao mesmo tempo apavorado com o futuro que o filme descrevia e fascinado com a história do policial semimorto que é transformado em uma “máquina orgânica” perfeita para o combate ao crime em uma cidade dominada pela violência. Na época, eu não entendi direito o roteiro, mas as cenas de ação eram bem feitas e o filme era bem violento, o que, para um moleque de 11 para 12 anos, era garantia de diversão.

Cartaz de "Robocop" de 1987

Cartaz de “Robocop” de 1987

Vinte e sete anos depois, eu voltei ao cinema para ver “Robocop”, o remake da história original dirigido por José Padilha, dos dois “Tropa de Elite”. Como sempre, eu estava meio cético, porque é muito mais fácil destruir um filme bom do que fazer um filme tão bom quanto (ou melhor até) do que o original.

Cartaz de "Robocop" de 2014

Cartaz de “Robocop” de 2014

É aqui que eu tenho de fazer o alerta de spoiler: se você não quer saber o que acontece no filme, pare de ler agora.

Se você ainda está lendo, a história do filme é basicamente a mesma, com algumas atualizações bem oportunas: em 2028, os drones são utilizados também para o policiamento ostensivo urbano, além das finalidades militares originais. E todos os países do planeta os utilizam, à exceção, justamente, dos Estados Unidos, em que a utilização de drones para fins não militares é proibida por lei. Os americanos consideram que o policiamento urbano deve ser feito por pessoas, que têm uma coisa que robôs jamais vão ter: sensibilidade, traduzida na criatividade e nos sentimentos humanos, para o bem e para o mal.

Porém, uma empresa, a OmniCorp (no filme original, Omni Consumer Products, OCP), fabricante de drones e dona do mercado mundial, quer derrubar a lei para entrar no mercado americano, e para isso usam todos os expedientes possíveis, inclusive a mídia tendenciosa, capitaneada por um programa de auditório comandado por Samuel L Jackson, que é um Wagner Montes sofisticado (suas aparições são uma remissão clara e bem vinda ao Fortunato de “Tropa de Elite 2”).

Em determinado momento, o CEO da OmniCorp (Michael Keaton, muito bem no papel) tem uma ideia: se os americanos não aceitam máquinas policiando as cidades, e se eles conseguissem criar uma máquina “humana”? Quer dizer, se eles conseguissem integrar um homem a uma máquina, criando um “sistema” essencialmente orgânico, com eficiência robótica?

Nesse cenário surge Alex Murphy, um detetive de polícia de Detroit, que persegue infiltrado há tempos um traficante perigoso, que atenta contra a sua vida. Só que Murphy não morre, e se torna a cobaia para a experiência que vem a se tornar o Robocop: um pedaço de homem dentro de um exoesqueleto de metal. E “pedaço” não é forma de dizer: depois do atentato, só se consegue recuperar de Murphy a cabeça, a coluna vertebral, coração, pulmões e a mão direita. Todo o resto é “biônico”.

Tudo parece funcionar bem, à exceção de um deetalhe: as emoções de Murphy interferem em seu julgamento, e fazem com que seu desempenho em ação ainda seja inferior ao dos drones. A solução: “desumanizá-lo” através da redução dos hormônios que as controlam a níveis mínimos; assim, o “homem robô” se torna cada vez mais um robô com um rosto de homem, mas totalmente automatizado, para delírio da OmniCorp, que finalmente consegue derrubar a lei que proíbe drones patrulhando as ruas.

Por outro lado, isso mostra à empresa que a “humanidade” do Robocop é uma falha fatal no “sistema”, o que fica ainda mais evidente quando Murphy, surpreendentemente, consegue recuperar sua consciência e volta a agir como um humano em uma armadura. Portanto, torna-se necessário matá-lo, o que é conveniente para transformar o Robocop em um mito e, consequentemente, potencializar as vendas da OmniCorp. É aí que Murpy se volta contra seus criadores e expõe os líderes da compahia, ao mesmo tempo que mostra à opinião pública que o programa dos robôs humanos é uma fraude.

“Robocop” é um bom filme, ótimo entretenimento. Não é violento como o original, porque Padilha se concentra no thriller político, e funciona. Os efeitos especiais são muito bons, e a história atual respeita bastante a produção anterior. Padilha não transformou Alex Murphy em um cyber Capitão Nascimento e fez um ótimo trabalho. Vale a pena assistir.

2 comentários sobre “Robocop

  1. Pingback: Birdman ou a inesperada virtude da ignorância | Bobeatus Sunt...

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