Detran-RJ, dificultando a vida

Ontem precisei ir no Detran do Rio, o que nunca é bom. Por mais simples que possa ser o serviço que o usuário deseja, o Detran sempre dá um jeito de torná-lo tão difícil de ser realizado que quando se consegue a pessoa encara como uma conquista pessoal e até comemora. Tem gente, inclusive, que tira onda, dizendo “ah, eu fui no Detran e consegui de primeira!”, o que é realmente raro – geralmente só se consegue o que se quer depois de duas ou três visitas a um dos postos de atendimento.

Tudo no Detran tem de ser aceito pelo “Sistema”, uma entidade etérea e superior que controla a vida de todos nos postos, no tele-atendimento, na administração. Se o “Sistema” não aceita, nada pode ser feito, remediado está. Somado ao “Sistema” está a má vontade, a falta de preparo e de educação dos atendentes, que, como no serviço público em geral, têm convicção de que estão prestando um grande favor ao cidadão e que nós temos mais é que agradecê-los pela atenção e não aborrecê-los muito.

Eu queria dar “baixa no gravame”, procedimento adotado quando se consegue pagar o financiamento do carro, que, no meu caso, já está quitado há mais de um ano, mas eu ainda não tinha providenciado por preguiça. Escolhi o posto Machado de Assis, no Catete, no caminho entre minha casa e o trabalho, e fui para lá de manhã, na hora em que o posto abre, já preparado para me aborrecer.

Nem precisei esperar. O atendente deixou bem claro que não queria me atender, mas não era pessoal: ele não queria trabalhar mesmo (é impressionante como tem gente que faz de tudo para não fazer nada), e, embora estivéssemos separados apenas pelo vidro da cabine, ele fazia questão de me ignorar, olhando fixamente para o monitor à frente dele. Depois de uns 15 minutos nessa situação, em que em o chamei duas vezes sem sucesso, ele resolveu ser belevolente e fazer o sacrifício de perguntar o que eu queria. em seguida, pediu os documentos para conferência.

Aí começou o drama: desde janeiro os pagamentos do Detran deixaram de ser feitos pelo Itaú e passaram a ser de responsabilidade do Bradesco. Por isso fiz o pagamento online, por meio do internet banking, com a utilização do código de barras do DUDA (Documento Único do Detran de Arrecadação – olha como forçam a barra pra criar uma sigla). Foi isso que eu levei para o Detran: o comprovante impresso do pagamento do DUDA. O cidadão olhava para aquilo como se nunca tivesse visto na vida e, depois de alguns minutos, perguntou:

- Cadê o DUDA?

Respondi que aquilo era o comprovante de pagamento do DUDA, que havia sido obtido no site do Bradesco, e que estava escrito bem claro “baixa de gravame”.

- Isso não serve. Preciso do DUDA.

Expliquei que isso era tudo o que eu tinha conseguido do Bradesco, e perguntei o que fazer. Ele olhou para mim entre indignado e surpreso, porque, afinal de contas, eu tinha ousado perguntar alguma coisa – pior, algo que provavelmente não estava no manual cartesianamente decorado para que ele pudesse se dignar a nos dar alguns momentos de atenção. Alguns instantes depois ele disse:

- Não sei.

Respondi, com a paciência na reserva:

- Meu amigo, por favor, o senhor trabalha aqui. O senhor deveria saber o que eu preciso fazer. É o senhor que tem de me dar essa informação.

Já ficando irritado, ele apontou para um contêiner e disse:

- Vá até aquela janela ali, é a supervisão. Pergunte lá.

Fui e encontrei uma moça. Contei a história e repeti a pergunta. Com o mesmo ar de enfado ela me respondeu:

- Vá no posto do outro lado da Rua (o da Correia Dutra). Lá tem uma máquina do autoatendimento do Bradesco. Lá você pode tirar a segunda via do DUDA, que vai informar se estiver mesmo paga (eu sou um mentiroso contumaz, mesmo, né? Quem acredita no comprovante de pagamento do banco?).

Antes de eu sair, porém, ela completou:

- Mas o CPF do dono do carro tem de ser o mesmo de quem pagou o DUDA, tá? Senão o sistema não aceita.

Ótimo. Não interessa se o serviço foi pago, ele tem de ser pago PELA MESMA PESSOA indicada como dona do carro. Quer dizer que se a Fê pagasse para mim não haveria, na verdade, pagamento nenhum; o que ela teria feito seria dar mais de cem reais para o Detran. O CPF é mais importante que o pagamento. Assim determinou o “Sistema”.

Fui no tal posto e tirei a segunda via do DUDA, que indicava direitinho a data de pagamento. Ótimo. Só faltava apresentar os documentos de volta e torcer.

Antes, porém, um parêntese: na hora de xerocar o documento de identidade e comprovante de residência – a carteira de motorista, emitida pelo Detran, NÃO SERVE COMO DOCUMENTO DE IDENTIDADE PARA O DETRAN, QUE É O ÓRGÃO DE IDENTIFICAÇÃO CIVIL DO RIO DE JANEIRO! -, fui a uma lojinha do lado do posto. Na falta de nota menor, fui pagar 75 centavos com uma nota de 10 reais. Quando estendi a nota, o aterndente do balcão ficou olhando para mim esperando que eu fizesse alguma coisa que não faria. A moça do caixa perguntou se eu tinha nota menor (deu vontade de dizer que tinha, mas estava entregando aquela só de sacanagem) e ambos os dois, conjuntamente juntos, ficaram furiosos por ter de dar R$ 9,25 de troco! Gente, por favor, entendam uma coisa: arrumar troco NÃO É PROBLEMA DO CONSUMIDOR! VIREM-SE!

Enfim, voltei ao posto e apresentei os documentos àquele atendente prestativo e educado, que, do alto de sua superioridade e de autoridade da qual minha vida dependia, disse:

- Agora sim, dá pra fazer alguma coisa. Eu te falei, com aquilo é impossível. Pode aguardar ali, por favor.

Depois de aproximadamente dez minutos de espera, meu nome foi recitado de forma gentil e delicada. Fui até a janela e o atendente, triunfante, apontou para a tela e disse:

- Olha só, não vai dar pra fazer nada. Tem duas multas aqui.

Eu não recebi essas multas, e nem quis discutir. O “Sistema” me pegou e vou ter de primeiro pagar as multas para só depois concluir aa baixa de alienação. Perdi quase a manhã inteira com isso, me aborreci novamente mas eles, o “Sistema” e o Detran, fizeram mais uma vítima. Tudo é perfeitamente engendrado para dificultar a vida do usuário, tudo é feito para que o cidadão esteja à disposição do Detran, e não o contrário. E o pior disso tudo é a perspectiva de retornar ao Detran para concluir o serviço inacabado.