Foi quase uma semana de chuva e frio, que durou até sábado à noite, véspera da Meia Maratona da Cidade do Rio de Janeiro. Eu estava preocupado, porque detesto correr nessas condições, não pelo frio, porque a temperatura baixa ajuda no desempenho, mas por causa da chuva: já imaginava os óculos cheios d’água, o tênis molhado e a meia ensopada, me deixando com bolhas que acabariam com o meu humor. Além disso, com esse tempo eu não consigo fazer um aquecimento decente, e aí o início da corrida incomoda à beça.
Além disso, eu não treinei como gostaria. Trabalho, chuva, João Guilherme (claro que não é culpa dele, coitado, mas um bebê exige muito a presença dos pais), às vezes não me deixavam treinar na frequência que estava planejando.
Isso tudo me deixou preocupado sobre meu desempenho na corrida. Algumas vezes cheguei a pensar mesmo em desistir, mas deixava pra lá.
Para tentar garantir uma noite tranquila, deixamos JG na casa da avó e fui deitar o mais cedo possível. Mas, como eu imaginava, dormi mal, por causa da ansiedade, pensando nisso tudo que escrevi aí em cima.
Às quinze para as seis encontrei o pessoal da corrida aqui na praia para pegarmos a van que nos levaria à Barra. O tempo ainda estava muito encoberto, mas a chuva tinha quase parado. Quando descemos e fomos para o local da largada para alongar e tentar aquecer, ainda chuviscava, mas dava pra ver que o tempo ia abrir. Quem ler este post até aqui e não corre vai me achar maluco: domingo, seis e meia da manhã, 17 graus, chuva fina e eu lá, amarradão, esperando a largada para correr 21 quilômetros e 97 metros, desde o posto 2, na Barra (para quem não conhece, é um pouco depois do Corpo de Bombeiros, na Av. do Pepê) até o Aterro do Flamengo. E ainda paguei por isso.
São Pedro foi parceiro, porque pouco antes da largada parou de chover, e deu pra perceber que a chuva provavelmente não ia mais voltar naquele dia. Mas a temperatura também não ia subir muito, ou seja, do ponto de vista meteorológico, era um dia perfeito para correr.
Dessa vez eu não ia correr sozinho: o Gustavo, um amigo da Street Runners, a assessoria com a qual eu treino, ia debutar em corridas longas, e estava muito ansioso. Para dar uma força para ambos (eu também não estava confiando muito nas minhas próprias condições), propus que corrêssemos juntos, em um ritmo tranquilo, e ele topou. Foi a melhor coisa que eu fiz para mim mesmo naquela corrida.
Corridas sempre têm histórias pitorescas, especialmente nos momentos que antecedem a largada. Desta vez, estávamos esperando o sinal quando três pobres moçoilas distraídas resolveram voltar da noitada pela praia. Aliás, deve ter sido uma bela noitada, porque elas estavam na mão do palhaço: uma delas estava descalça e segurando uma lata de cerveja com uma das mãos e os sapatos com a outra, maquiagem borrada e o cabelo desgrenhado, outra estava segurando um copo que ia derramando cerveja a cada passo cambaleante que ela dava, totalmente entregue. A terceira, do meio, era escorada pelas outras duas. E elas resolveram passar assim na frente de oito mil pessoas que estavam pilhadas esperando pela largada. Claro que ninguém perdoou.
Aí veio a notícia: a minha querida RGT havia mandado atrasarem a largada para poderem transmiti-la ao vivo. Ah, fala sério: atrasar a largada por causa do “Pequenas Empresas, Grandes Negócios” não é só uma puta sacanagem, é ridículo! Tão ridídulo que a organização, depois de esperar um pouco, avisou que a largada ia ser dada com ou sem autorização da RGT. Dada a largada, lá fomos nós.
Ainda na subida do Elevado do Joá, um pouco antes do primeiro túnel, mais ou menos no Km 1, pegamos chuva de novo. Foi a última vez que choveu no domingo. O asfalto era ruim, cheio de buracos que podiam causar quedas, e o túnel era um forno. Aliás, durante todo o trajeto buracos e poças d’água eram uma preocupação constante – ah, Operação Asfalto Liso…
Diferentemente da Meia Internacional do Rio, que larga em São Conrado, no pé da Niemeyer, esta corrida tem duas subidas grandes, o Joá (mais ou menos 1 km) e a Niemeyer (2 km), que você encara entre os km 5 e 6, o que torna a prova bem mais exigente. Mas correr com companhia facilitou pra caramba as coisas. Na verdade, foi muito mais tranquilo do que eu imaginava, surpreendentemente mais tranquilo, até o km 19, quando eu cansei de verdade e comecei a sentir um incômodo na panturrilha direita. Era um anúncio de câimbra. Ah, peraí, faltando 2 quilômetros não, né? Deixei o Gustavo seguir, reduzi o ritmo, achei uma zona de conforto e segui para completar a prova. Não deu pra dar um sprint no último quilômetro, como eu gosto de fazer, mas terminar era mais importante.
Meu tempo líquido corrigido foi 2 horas, 38 minutos e 31 segundos. Em termos absolutos, não consegui melhorar o tempo da Meia Internacional de 2008 (as comparações são inevitáveis), mas, na minha opinião, considerando o trajeto mais difícil e a quase-câimbra, e levando em conta que eu quase nem corri porque achava que estava mal treinado, foi bom demais.
Fico só imaginando quando JG tiver idade suficiente para me acompanhar. Será que ele vai gostar de correr? Será que ele vai querer correr comigo? Não sei, mas fico tão entusiasmado só de pensar nisso… bom, daqui a 18 anos vamos ver o que acontece.
