O Museu Vaticano é um enorme complexo de galerias, salas, alas, corredores, halls e nichos concentrando a maior coleção de arte de todo o planeta. Há alas de arte egípcia, grega, fenícia, da Roma primitiva, moderna, sacra, pagã, uma coisa impressionante. Impressionante mesmo.
Não sei por quê, mas em italiano o Museu Vaticano se chama “Musei Vaticani”, ou “Museus Vaticanos”, no plural. Acredito que seja por causa da diversidade de alas que contêm as mais diversas coleções, e também porque lá no “complexo” ficam a Biblioteca do Vaticano (a maior, mais variada e mais completa biblioteca do mundo) e e ela, o objeto maior da minha expectativa, a Capela Sistina.
O Museu funciona de segunda a sábado, fechando aos domingos, à exceção do último domingo de cada mês, quando a entrada é gratis (é o melhor negócio – você economiza 24 Euros por pessoa de ingresso). Fomos na segunda e chegamos cedo, porque a visita toma muito tempo mesmo. Se você for muito criterioso e quiser ver o museu todo, prepare-se para dois dias de visita, pelo menos.
A visita ao Museu segue um roteiro bem definido e muito bem sinalizado por todos os enormes corredores do prédio. Tudo é bem sinalizado e bem identificado. E em todos os lugares há uma plaquinha indicando a direção da Capela Sistina. Começamos a visita passando pela ala com a arte egípcia, onde uma sucessão de estátuas de várias divindades se sucediam, além de múmias em excelente estado de conservação, sarcófagos, utensílios utilizados em cerimônias fúnebres, sudários (alguns deles ainda estavam em restauração, e, nesses casos, havia uma projeção feita em computador de como ficariam quando prontas), adornos, enfim, tudo que se pode imaginar sobre o Egito estava ali.
Passamos pelas alas mais variadas que você pode imaginar. Tapeçarias, mapas, bustos em mármore, estátuas em bronze, animais, seres mitológicos, deuses gregos e romanos, papas, nobres, tudo.
Tudo lindo, tudo muito bacana (mesmo!), mas eu só pensava nela – a Capela. E a cada ala nova que visitávamos minha animação aumentava. Vou direito ao ponto então, com todo respeito ao mais imponente e importante museu do planeta.
Em determinado momento da visita comecei a ouvir um burburinho que aumentava progressivamente. Chegamos a uma ante-sala em que o burburinho se transformava em um quase tumulto, e na antessala havia uma portinha onde pessoas se amontoavam tentando passar. Era ali. Eu não conseguia me conter, entrei na fila e me concentrei, com o firme propósito de só olhar para cima quando estivesse mais ou menos no meio do salão.
Antes, porém, me deparei com o cartaz enorme e ameaçador: fotografias, filmagens ou qualquer forma de captação eletrônica ou mecânica de imagens eram terminantemente proibidas ali. E havia fiscais na entrada do salão e perto do púlpito que realmente fiscalizavam e ameaçavam tomar as máquinas de quem tentasse fotografar ou filmar qualquer coisa. Um segurança gritava incessantemente: “No photos!!”
A Capela Sistina foi construída por ordem do Papa Sisto IV no Palácio Apostólico, que também integra o complexo do Museu Vaticano. Foi construída entre 1475 e 1483 e foi inaugurada em 15 de agosto de 1483, e é lá que se realizam os conclaves para escolha dos papas. Ela tem, mal comparando, o tamanho de uma quadra de futsal, e um pé direito altíssimo. E, evidentemente, o mais importante de tudo, o teto com a pintura mais famosa da humanidade, que, depois de acompanhar mais de 500 anos de História, estava exatamente em cima de mim. Tenso, fechei os olhos e levantei a cabeça.
É uma visão hipnotizante. Eu tinha conseguido ficar exatamente embaixo da pintura da criação do Homem, aquela em que Deus toca Adão com a ponta do dedo. Comecei a observar a perfeição dos traços, as cores, a riqueza de detalhes, e depois de alguns minutos de contemplação concluí que foi Deus quem pintou aquele teto, usando Michelangelo como pincel. Eu não acredito que um (um!) homem, quinhentos anos atrás, seria capaz de fazer aquilo tudo sozinho. Emocionado, segurei a mão da Fê (que estava de queixo caído), rezei e finalmente falei:
– Michelangelo, você é o cara!
Eu não resisti e tentei tirar uma foto (brasileiro não aprende), segurando a câmera na altura da cintura, bem disfarçadamente para que ninguém percebesse (muito menos o guarda histérico). De repente um inglês (vestido daquele jeito só podia ser inglês) colocou a mão em cima da máquina e falou “no photos!”. Meio envergonhado, e vendo que as fotos (eu tentei mais de uma vez até o inglês aparecer) não estavam boas, acabei desistindo. Vai ficar tudo na memória até eu voltar para Roma.
Ao longo das paredes da Capela há um banco contínuo, para que as pessoas possam se sentar. Há também dois degraus parto do altar, mas é proibido sentar no chão (mais proibido até do que tirar foto). Se eu pudesse eu ficaria deitado para apreciar melhor aquele monumento.
A Capela Sistina foi a última atração que vimos no Museu. Dali fomos para a saída, mesmo porque nada mais me interessava depois: o dia estava passando e ainda tínhamos muita coisa para fazer, e nossa volta era no dia seguinte. Então resolvemos nos apressar e voltamos para o Centro de Roma, de metrô.




























