Arquivo para a categoria 'História'

10
mai
12

O doido vazou

Pode ser irrelevante para muita gente, mas para quem, como eu e o Leandro, que curtimos Fórmula 1, especialmente a Fórmula 1 “moleque”, “arte”, “de amor à camisa” – refiro-me essencialmente aos anos 70, 80 e início dos 90, é importante lembrar que ontem, dia 09 de maio, completaram-se 30 anos da morte do canadense Gilles Villeneuve, um dos pilotos mais pirados que a categoria já conheceu.

Pra quem se liga muito em números e estatísticas, a carreira dele nunca foi lá grande coisa: em 67 corridas disputadas entre 1977 e 1982, fez 2 poles, ganhou seis vezes e foi vice campeão do mundo em 1979, fazendo dobradinha com Jody Scheckter no último título de pilotos antes do jejum que a Ferrari ia enfrentar até 2000, quando o Schumacher tirou o time da fila. Dessas corridas, a primeira foi disputada pela McLaren, e as demais pela Ferrari, equipe que praticamente personificou, tendo desenvolvido uma relação quase paternal com o Comendador Enzo Ferrari, fundador e dono do time.

Arrojado é pouco pra descrever o estilo de pilotagem de Villeneuve. Ele era maluco. Não ultrapassava onde podia, ultrapassava onde dava. E onde não dava era ainda mais legal. Ele passava com um carro a 60 km/honde eu não passaria com uma bicicleta a 20 km/h. Errava muito também, e isso lhe custou várias corridas, mas mesmo nos erros ele era espetacular. Paradoxalmente, fora do carro ele era pacato e discreto, totalmente avesso à badalação do paddock.

Villeneuve morreu aos 32 anos, devido às lesões causadas pelo acidente que sofreu durante os treinos classificatórios para o GP da Bélgica, em Zolder. A roda dianteira esquerda bateu na roda traseira direita de Jochen Mass, da March, e o carro decolou, capotando várias vezes. Gilles foi arremesado do carro, preso ao banco, contra o alambrado, e não resistiu.

Villeneuve morreu em crise de relacionamento com a Ferrari. Na corrida anterior ao GP da Bélgica, o GP de San Marino, seu companheiro de equipe, Didier Pironi (que também sofreu sério acidente no mesmo ano, em Hockenheim, e encerrou a carreira na F-1) havia desobedecido uma ordem de equipe que favoreceria Gilles (nada parecido com o “Fernando is faster than you”, eram outros tempos) e já se especulava que ele deixaria a equipe para correr na Williams (que faria Keke Rosberg campeão do mundo naquele ano) em 1983. Curiosamente, 15 anos depois, em 1997, seu filho Jacques sagrou-se campeão do mundo com uma Williams, derrotando Michael Schumacher com uma Ferrari.

Há vídeos aos montes no Youtube mostrando as doideiras de Villeneuve para quem quiser ver. Eu separei um que mostra a, na minha opinião, mais enlouquecida e famosa perseguição da história da Fórmula 1: as voltas finais do GP da França de 1979, disputado em 1º de julho daquele ano no circuito de Dijon-Prenois, em que Villeneuve e René Arnoux, da Renault, se engalfinham pelo segundo lugar na corrida, vencida por Jean-Pierra Jabouille, também da Renault. Tudo no maior fair play! Uma aula de pilotagem que deveria ser seguida pelos pilotos de hoje.

Sallut Gilles!

07
dez
11

Pearl Harbour, 70

Foi em 7 de dezembro de 1941 que aconteceu o ataque mais surpreendente da Segunda Guerra Mundial, com o bombardeio japonês à base americana de Pearl Harbour, no Havaí. Esse ataque foi a gota d’água para a entrada dos Estados Unidos na Guerra (o que já vinha sendo implorado pelos aliados europeus desde o início do conflito, em 1939) e motivou a mais cruel vingança contra outro país de que se tem notícia, os bombardeios nucleares a Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, e um filme horroroso com Ben Affleck e Kate Beckinsale, em 2001.

O que fez o Japão executar um ataque tão ousado foi o embargo econômico imposto pela Liga das Nações, especialmente os Estados Unidos e a Inglaterra, inclusive com o fechamento do canal do Panamá aos navios japoneses, em resposta ao expansionismo japonês no sudeste da ásia, especialmente na China e na Coreia e depois Vietnam, Laos e Camboja, áreas onde os integrantes da Liga tinham grandes interesses comerciais. À medida em que o embargo ia se intensificando, os japoneses, desesperados pela falta de petróleo e pelo bloqueio a suas exportações e querendo marcar posição perante a comunidade internacional, decidiram atacar.

O ataque japonês foi extraordinariamente bem sucedido sob um aspecto: a surpresa, que tinha por fim evitar uma batalha longa com os americanos no pacífico, a qual os nipÕnicos não suportariam. Era necessário um golpe rápido e fulminante. Contribuiu para isso o silêncio da frota japonesa, que suspendeu todas as comunicações entre os navios que a integravam e entre estes e o Japão, impedindo, assim, que alguém pudesse perceber o que estava acontecendo. A estratégia, que contou com a inexistência de equipamentos capazes de decrifrar as mensagens cifradas dos japoneses em Pearl Harbour, deu certo, e os americanos nem desconfiavam da possibilidade de um ataque japonês à base, que foi pega totalmente desguarnecida. O resultado foi a quase total destruição da frota do pacífico, mais de 2.000 militares e quase 70 civis mortos.

Porém, duas circunstâncias foram crucuais para que o sucesso do ataque japonês não fosse total, e o futuro da Guerra no Pacífico acabasse revertendo contra eles: primeiro, os três porta aviões da frota do pacífico não estavam na base naquele dia; segundo, os aviões japoneses não atingiram os depósitos de combustíveis e outras instalações estratégias. Com isso os EUA conseguiram se recuperar rapidamente e, menos de quatro anos depois, impuseram ao Japão uma das maiores carnificinas da história, ao custo de milhões de vidas de civis inocentes.

11
set
11

Guerra ao terror

Em uma manhã de terça feira, quatro aviões comerciais cheios de gente foram sequestrados. Dois deles foram atirados contra os dois maiores prédios de uma das cidades mais importantes do mundo, outro foi lançado contra o edifício-sede da segurança nacional americana e o último foi derrubado pelos sequestradores quando os passageiros tentavam tomar seu controle. Milhares de pessoas morreram. Não é roteiro de filme, mas bem que poderia ser.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 foram o mais ousado, abusado, criativo, absurdo, surpreendente e assustador ato praticado contra a humanidade que se tem notícia, e marcaram demais, a ponto de estarmos aqui, dez anos depois, falando sobre ele – é só ligar a televisão que você vai ver alguma reportagem, resenha, crítica, explicação ou análise sobre razões, origens, execução, consequências e perspectivas para humanidade no futuro. Não é à toa.

Os ataques, contrariamente ao que geralmente acontece em momentos de graves crises, não tiveram aviso prévio ou ameaça, não eram previsíveis ou esperados, e é exatamente aí que está o grande diferencial do terrorismo: a imprevisibilidade, a surpresa, a aleatoriedade. Podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento. São ataques que não têm rosto, os responsáveis não são facilmente identificáveis e nem seus motivos são facilmente compreensíveis.

Acho que é aí que está o ponto principal da questão: no curso da história, os inimigos sempre tiveram um rosto e uma causa: no século XX, por exemplo, todo mundo sabia a quem enfrentar na Segunda Guerra Mundial ou na Guerra Fria. Depois do 11 de setembro, não.

Não é exagero dizer que o mundo mudou a partir daquele dia. Mudou muito, para pior. Os atentados marcaram o fim da privacidade e das liberdades individuais, institucionalizaram a paranoia, o preconceito e a intolerância e, pior, não adiantou nada. Outros atentados se seguiram, nenhuma medida que efetivamente traga maior segurança às pessoas foi tomada (ao contrário, privatizou-se a segurança, com a política do “se você vir, conte”, o que aumenta mais ainda a histeria, porque, convenhamos, sem articulação de inteligência isso não pode funcionar). Ao contrário do que foi “prometido”, a guerra ao terror não foi vencida e não vivemos em um mundo melhor e mais seguro. Para completar, a “civilização judaico-cristã ocidental” mergulhou em uma guerra absurdamente custosa que provocou o superendividamento de vários países, especialmente os Estados Unidos, o que contribuiu decisivamente com a crise econômica que temos enfrentado hoje.

É bom mesmo que se discuta bastante a questão do 11 de setembro. Muitas lições que poderiam ser aprendidas dali não o foram, e a minha sensação é que andamos para trás em vários pontos nessa década. A maior delas, para mim, é que intolerância e preconceito não são solução para nada, ao contrário, só têm contribuído para que o fim da “guerra ao terror” esteja bem, bem longe.

26
ago
11

Rede da legalidade

Ontem fez cinquenta anos que Janio da Silva Quadros, presidente da república com a maior votação da história do país até então, reunciou, o que levou o Brasil a um dos maiores turbilhões políticos de que se tem notícia, quase chegando à guerra civil.

As razões da renúncia até hoje são nebulosas. Jânio declarou que “voltaria nos braços do povo”, talvez pensando em dar um golpe por meio da força popular, de modo a ter força suficiente para fechar o Congresso, talvez, e governar sozinho. O fato é que não voltou, e com a renúncia, João Goulart, vice presidente que estava na China, deveria assumir.

Deveria, mas quase não foi. Isso porque era comunista, e os Ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, receosos da ascenção de um presidente comunista, resolveram tentar impedir a posse de João Goulart e aplicar um golpe de Estado, que não aconteceu devido à resistência do Governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (que dezenove anos depois seria eleito para o primeiro – e terrível – mandato de governador do Rio de Janeiro. E o segundo foi ainda pior!), que, aliado ao Chefe do III Exército (o mais forte do país, devido ao receio daqueles tempos de que a Argentina invadisse o Brasil), conseguiu forçar o respeito à constituição e garantir a posse do Vice, que chegou a ser ameaçado de prisão se voltasse para o Brasil.

No entanto, a posse de João Goulart, ocorrida em sete de setembro, não foi garantia de tranquilidade. De modo a negociar uma saída pacífica para a crise, instituiu-se o parlamentarismo, sendo o primeiro ministro Tancredo Neves (que vinte e quatro anos depois seria eleito o primeiro presidente civil depois do regime militar, e morreu antes da posse), o que, porém, não impediu que os militares, insatisfeitos e receosos dos rumos do país, comandado por um presidente de esquerda, assumissem o poder por meio do golpe de 1964, impondo um regime que durou 21 anos.

Jânio Quadros voltou à cena política, sendo eleito prefeito de São Paulo em 1988 (derrotando Fernando Henrique Cardoso), mas seu mandato foi marcado mais por factóides como os ônibus de dois andares à lá Londres, proibição da “genitália desnuda” em locais públicos e aplicação, por ele mesmo, de multas de trânsito enquanto ia de casa para a sede do governo. Meio maluco mesmo. Não é de se estranhar que tenha renunciado apenas oito meses de ter sido empossado como o presidente da república mais votado da História do Brasil.

03
ago
11

“I want my MTV…”

Só pra constar, anteontem, dia 1.º de agosto, completou-se 30 anos da criação da MTV – no Brasil, ela foi inaugurada em meados de 1990, como uma faixa de programação de um canal de televisão aberta (no Rio era a TV Corcovado, canal 9) e teve, àquela época, por maior mérito nos livrar dos inacreditáveis clipes do Fantástico!

Para não deixar a data passar em branco, eis o primeiro clipe exibido pelo canal. A música, de 1979, tem o sugestivo nome de “Video Killed the Radio Star”, do The Buggles. Notem que, apesar da tosquice, e considerando a idade (32 anos), o vídeo é até bem produzido!

26
abr
11

Chernobyl, 25

O maior acidente nuclear da História completa, hoje, vinte e cinco anos. Um teste de segurança mal sucedido graças a uma série de erros fez com que um dos reatores da usina nuclear de Chernobyl explodisse. Como ainda estávamos na guerra fria, o acidente demorou para ser divulgado, como também demoraram a ser tomadas medidas de controle. Pra piorar, naquela época as pessoas viviam à sombra constante da ameaça de um holocausto nuclear (muito bem representado pelo filme “O Dia Seguinte“, de 1983, por exemplo), e o acidente foi encarado como o prenúncio do fim do mundo. Não foi, mas foi uma grande tragédia que matou muita gente e fez com que a geração e utilização da energia nuclear fossem profundamente discutidas munudo afora.

Curiosamente, hoje vivemos às voltas com o vazamento da usina de Fukushima, no Japão, um acidente de proporções bem parecidas com o de Chernobyl, e que trouxe novamente à tona a discussão sobre a energia nuclear: há países como a França, que depende fundamentalmente da energia nuclear, defendendo sua utilização e sustentando que acidentes como estes são fatos isolados – um, provocado acidentalmente, outro, provocado pela natureza – e que o que se deve fazer é incentivar o desenvolvimento de novos métodos de operação das usinas para tentar minimizar ainda mais os riscos; outros países, porém, veem nesse acidente mais uma “saída de serviço” para sustentar o investimento em matrizes energéticas fósseis, ou de origem vegetal.

O fato é que não há planta industrial imune a acidentes, seja uma padaria, seja uma usina nuclear. O que devemos, na minha opinião, é estudar o ocorrido sempre com vistas a reduzir cada vez mais os riscos às pessoas e ao meio ambiente, porque eu quero este planeta inteiro, para ficar por aqui o maior tempo possível.

12
abr
11

A Terra é azul

A frase que ilustra o título do post foi proferida por Iuri Gagarin, primeiro ser humano a completar uma órbita em torno da Terra, em um dos momentos mais marcantes da corrida espacial – só superado pela chegada do homem à lua. A epopeia de Gagarin, realizada a bordo da nave Vostok 1, completa 50 anos hoje, dia 12 de abril, e merece ser reverenciada como uma das maiores realizações da humanidade – mais uma prova de que a ilteligência humana é capaz de façanhas incríveis quando bem utilizada. O astronauta, naquela ocasião, disse outra frase, que hoje não merece tanto destaque, mas representava de modo exemplar o ateísmo instituído pelo Partido Comunista Soviético: “olhei para todos os lados, mas não vi Deus”.

A órbita de Gagarin, o primeiro ser humano a ver nosso planeta do espaço, aos 27 anos de idade, durou 108 minutos, e foi tão importante para a União Soviética que ele foi promovido de tenente a major em pleno voo, para o feito ser anunciado com pompa na televisão. Gagarin também foi promovido a celebridade mundial e foi até recebido pelo presidente Jânio Quadros para receber a Ordem do Cruzeiro do Sul. Algumas semanas após a órbita do russo, os americanos conseguiram colocar o astronauta Alan Shepard em órbita e, em 1969, conseguiram chegar à Lua, com Neil Armstrong.

Desde aquele 12 de abril de 1961, o homem foi ao espaço várias outras vezes, com os Projetos Mercury, Gemini, Apollo, com o qual se deu a conquista da Lua, e Ônibus Espacial, que está sendo encerrado e daria lugar ao Projeto Constellation, que previa voos tripulados para a Lua, mas foi cancelado pelo governo americano. Parece que os terráqueos, agora, vão ficar mais tempo no chão, para organizar a própria casa.

14
dez
10

AI-5, 42

O dia 13 de dezembro marcou o aniversário de 42 anos do Ato Institucional n.º 5, o famigerado AI-5, que marcou o endurecimento do regime militar que vigia desde o golpe de 1.º de abril de 1964. Aliás, alguns historiadores sustentam que o verdadeiro golpe militar foi dado com o AI-5, porque ele atropelou a Constituição da República de 1967 e as constituições estaduais, suspendendo as garantias individuais dos cidadãos.

Os principais efeitos nefastos do AI-5 foram o fechamento das Casas Legislativas de todas as esferas institucionais, concentrando as respectivas atribuições no Executivo; a suspensão dos direitos políticos dos cidadãos por dez anos; a outorga de poderes ao Presidente da República para cassar mandados legislativos; a instituição da censura prévia à imprensa impressa, televisão, rádio, peças de teatro e cinema; a outorga de poderes ao Presidente da República para decretar livremente intervenção federal em Estados, Municípios e no Distrito Federal; a proibição de manifestações populares de caráter político e a suspensão do direito à obteção de habeas corpus em casos de crimes políticos, contra a ordem econômica, a segurança nacional e a economia popular.

Imagino como devem ter sido difíceis aqueles tempos. Muito embora a ditadura brasileira não tenha sido tão violenta quanto a argentina e, principalmente, a chilena, a suspensão de direitos básicos como o de habeas corpus diante de figuras penais abstratas e imprecisas como “crimes políticos” ou “contra a segurança nacional” gera uma situação de incerteza extrema, porque qualquer um poderia ser preso por qualquer coisa, sem direito a liberdade por conta de ilegalidade ou abuso de poder. É uma situação difícil de compreender hoje, principalmente para nós, que crescemos sob a égide de uma constituição extremamente preocupada com os direitos e garantias individuais.

A censura prévia aos meios de comunicação e manifestação artística também é terrível, porque não há parâmetros objetivos para se controlar o que pode ou não pode ser escrito, dito, encenado, filmado e afins. A existência, por exemplo, de blogs, a maioria inútil e despretensiosa, como este, mas outros sérios e engajados, seria inviável.

O AI-5 foi revogado pelo artigo 3.º da Emenda Constitucional n.º 11 à Constituição da República de 1969, publicada em 13 de outubro de 1978 e vigente a partir de 1.º de janeiro de 1979, marcando o primeiro passo para a abertura política que passou pela queda do regime de exceção, em janeiro 1985, e culminou com as eleições diretas para presidente ocorridas em novembro de 1989. Apesar de ter sido criado há mais de 4 décadas e de ter sido extinto há quase 32 anos, acho importante que não se esqueça dessa fase ruim da história do Brasil, para evitar que ela volte, piorada, no futuro.

23
out
10

Pelé, 70

O maior jogador de futebol da história completa, hoje, setenta anos de idade. Todas as homenagens são justas; o futebol se transformou depois de Pelé.

Pelé não jogou pela Seleção, ele a personificou. Usando a expressão de Pontes de Miranda, ele a presentou, ou seja, a presença dele era a presença da Seleção. Ele era o valor do time, assim como do Santos.

Pelé é o maior do mundo por vários motivos: é completo, perfeito em todos os fundamentos, sabia comandar o time como nenhum outro, fez 1.281 gols (o milésimo, no Maracanã, contra o Vasco, em 19 de novembro de 1969), tinha comportamento exemplar dentro e fora de campo e fez o que nenhum outro jogador fez ou vai fazer.

O jogador que foi campeão mundial com 17 anos atingiu o sublime aos 29, quando foi o dono do Tri. Perto da Copa de 70, paradoxalmente, estava sob intensa desconfiança da torcida e dos jornalistas, porque, três meses antes, não estava em boa fase, e também porque não tinha sido decisivo nas copas anteriores – estava machucado em 1962, no Chile, e foi caçado em campo em 66, na Inglaterra. Nunca um jogador foi tão soberano em um Mundial como ele foi no México. Sem ele o Brasil até poderia ter sido campeão, mas seria só mais um; com Pelé, foi a maior seleção da História.

Em 70 Pelé fez tudo: driblou, lançou, bateu (uma cotovelada sensacional no uruguaio Fontes, revidando uma falta sofrida em um outro lance, que o juiz marcou como falta a favor do Brasil), cadenciou o jogo, acalmou o time quando era necessário, orientou os jogadores, enfim, era o técnico dentro de campo. Se aposentou da Seleção aos 30 anos, em 1971, cedo demais quando lembramos que Romário, por exemplo, foi artilheiro do Campeonato Brasileiro aos 38 anos e marcou o milésimo gol aos 40. mas eram outros tempos, a carreira era muito mais curta do que é hoje.

O interessante é que Pelé é mais conhecido pelos gols que não fez do que por aqueles que ele fez. Qualquer um lembra do drible da vaca no Mazurkievics, goleiro do Uruguai, na semifinal de 70, ou do chute lá do outro lado do campo contra a Tchecoslováquia, quando viu o goleiro Viktor adiantado.

Mas, por outro lado, Romário tem toda razão quando diz que Pelé, calado, é um poeta. Por incrível que pareça, o maior jogador de futebol da história não entende nada de futebol. Seus palpites são risíveis, frequentemente manda batatadas históricas e é um dos piores comentaristas que eu já vi – quem viu as Copas de 90 e 94 sabe do que eu estou falando. Quem é apontado por ele como favorito para qualquer competição já fica preocupado. Pior ainda é a mania infeliz de tentar ficar bem na fita com todo mundo, não desagradar ninguém, como aconteceu quando a FIFA, que comemorava 100 anos, pediu para ele fizesse uima lista com os 100 maiores jogadores de todos os tempos. Depois de muitos adiamentos, saiu uma lista com 125 nomes, com gente de quem nunca se ouviu falar, sem Garrincha ou Gerson, e com duas mulheres representando os Estados Unidos. Era ou não era pra ficar bem com todo mundo? Por isso que ninguém levou a lista a sério, no final.

Pelé é o rei por tudo o que fez pelo futebol com os pés. Feliz aniversário para ele, e que seja muito feliz.

05
out
10

Constituição da República Federativa do Brasil, 22

Há vinte e dois anos, no dia 5 de outubro de 1988, Ulisses Guimarães, Presidente da Assembleia Nacional Constituinte, declarava promulgada a nova Constituição da República (que foi incorretamente apelidada de Constituição “Federal”), que marcava o rompimento definitivo com o regime de exceção que vigera desde 1964, endurecera em 1968 e começara a enfraquecer em 1979, para agonizar a partir de 1985.

Sua inspiração está nas constituições europeias do pós-guerra e também na constituição dos Estados Unidos, da qual foi trazida uma das mais importantes inovações para o ordenamento jurídico-constitucional: o controle de constitucionalidade. Por meio dele, atribuiu-se ao Supremo Tribunal Federal, a quem ficou confiada a defesa da própria Constituição, o controle de constitucionalidade em abstrato (ou seja, não relacionado a uma situação específica) de leis e atos normativos federais e estaduais.

A Constituição da República de 1988, apesar das controvérsias, tem grandes méritos. Até sua promulgação, o “centro de interesses” do ordenamento jurídico nacional era disciplinado pelo Código Civil, que era considerado o “principal” diploma legislativo no Brasil, regulador de todas as relações privadas, patrimoniais; à Constituição restava uma importância residual, apenas para regular as relações entre o Estado e o cidadão. Com a Carta atual o centro axiológico do ordenamento jurídico deixou de ser o patrimônio e passou a ser o indivíduo – o ser tornou-se mais importante que o ter, e cabe ao Estado assegurar meios para que o ser humano efetivamente seja (feliz, formalmente educado, saudável, protegido), antes de ter. Para isso, a própria Constituição passou a ser a base de todo o ordenamento jurídico – qualquer outra norma é que deve se adequar a ela, e não o contrário. Aquelas que não estejam de acordo com os valores, princípios e regras constitucionais estarão extintas do denário jurídico brasileiro, e todos, inclusive o Estado, que a fez, devem se submeter a ela.

Claro que há defeitos, porém: o texto, excessivamente analítico, avoca temas absolutamente alheios à temática constitucional, e até exóticos, como definir que o Colégio Pedro II terá sede no Rio de Janeiro. Há muitos aspectos que poderiam, tranquilamente, ser disciplinado por normas infraconstitucionais, mas não o foram, o que se explica pelo panorama histórico da promulgação. Por isso, aliás, temos tantas Emendas à Constituição, que não são necessariamente ruins, porque têm por finalidade mantê-la atualizada (muito embora, de vez em quando, o resultado não seja lá dos melhores).

Por outro lado, o resultado, no final, é bem positivo. Se temos, hoje, um país bem estruturado democraticamente (mesmo que isso crie alguns Tiriricas da vida, ocasionalmente), com instituições bem definidas e Poderes sólidos, que se respeitam e se controlam, devemos isso à Constituição da República Federativa do Brasil, que, apesar dos pesares, tem feito um ótimo trabalho.




Quem manda na área

Carioca nascido em Brasília, 36 anos, o pai do João Guilherme. Conhecido à boca miúda como o "Oráculo dos anos 80", que, para mim, não tiveram nada de "década perdida", sou destemido e temido nos quiz e joguinos de perguntas e respostas. Também sou viciado em cultura inútil. Vascaíno, adoro sorvete de creme e detesto camarão.

Mantra:

Nunca duvide da mediocridade humana - para baixo não há limites!

A foto do cabeçalho é…

Templo de Saturno, Via Sacra, Roma

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