Arquivo para a categoria 'Grandes Frias'

31
ago
11

Mais uma do Osbar

Para quem não sabe, o Osbar é o boteco perto do trabalho onde eu costumo almoçar, que tem comida ótima, som se primeira e um dono, o Osmar, que faria o Capitão Nascimento tremer na base. O cara já não perdoa em um dia bom, imagine quando ele está de mau humor!

Dia desses, estava eu almoçando, tranquilo, quando um cidadão desavisado sentou-se ao meu lado. Voltando-se para o garçom, pediu, cheio de pureza no coração:

- Por favor, eu quero um filé mignon muito bem passado. Mas é muito bem passado mesmo!

Eu olhei para ele, já sabendo que o destino do infeliz estava selado. Se tem uma coisa que tira o Osmar do sério no balcão é pedirem filé bem passado, ainda mais “muito bem passado mesmo”.

O garçom era a imagem da piedade quando foi lá dentro fazer o pedido. A partir daquele momento nada poderia salvar o cliente.

Depois de alguns minutos o filé chegou. Depois de um exame rápido, o freguês mandou voltar. “Passa mais um pouco, por favor?”, pediu. O que já era ruim ia piorar.

O garçom foi, voltou e o cara pediu para passar o filé mais um pouco. Seguiu-se o diálogo:

- O senhor vai me desculpar, mas não vou não. Se o senhor quiser, fale com o dono do bar.

- Mas só estou pedindo para passar mais! Eu gosto de filé muito bem passado!

- O senhor não conhece o dono do bar. Eu conheço. E hoje ele está atacado. Eu sei o que estou dizendo, e não vou pedir nada. Posso chamá-lo aqui, se o senhor quiser.

- Por favor, então.

Àquela altura, eu já estava preocupado em terminar de comer logo, porque o cara estava do meu lado e eu estava sentindo que aquilo ia acabar mal. O resto do bar, de acordo com o “Código de ética Osbar”, fingia que não via nada. Osmar chegou, irritado.

- Boa tarde, eu queria pedir…

- Não vou passar mais nada! Não precisa pagar! Pode ir embora! Não admito servir filé bem passado!

- Mas quem vai comer sou eu, eu gosto assim, quero assim!

- Já falei que não! Não faço! Não sirvo! Vá comer em outro lugar! E não quero seu dinheiro! Passar bem!

Atônito, o homem foi embora. Osmar fez mais uma vítima, eu, que estava bem ao lado da cena, escapei ileso do almoço “com emoção”.

10
set
10

Grandes frias: Parati (II)

Enquanto desembarcávamos da traineira que havia nos levado à Praia Grande Cajaíba, comecei a prestar atenção no lugar. A primeira coisa que notei foi que “reservada” era muito otimismo, a praia era quase deserta mesmo. Só um pier, uma birosca, a casa onde ficaríamos e mais nada.

Aí chegamos à casa, e a decepção rivalizou com o desespero. Não havia luz, água encanada, esgoto, nada. O banheiro era um buraco no chão em um cubículo dentro da casa. A cozinha estava destruída, e os cômodos estavam todos lotados pela turba que estava na casa, mais ou menos 20 pessoas (incluindo o tal do filho do Ivan Lins, que tinha barba e cabelo tão compridos que nem deu pra ver se era parecido ou não com o pai). Minha primeira reação foi procurar o barqueiro para ir embora de volta para Parati, mas ele já tinha ido e só voltaria no dia seguinte, à tarde.

Logo que entramos, fomos apresentados aos que já estavam lá. Uma galera… hum… exótica é um bom termo para descrevê-la. De caretas na casa, só eu e Fê, minha irmã e a amiga dela. Os outros… Festa estranha com gente (muito) esquisita, eu, definitivamente, não estava legal. A higiene era precária, e as meninas conseguiam ser mais relaxadas com a limpeza do que os garotos, com a justificativa ridícula de que estavam “em contato com a natureza”, então “tinha de ser assim mesmo”.

Fê e eu tínhamos levado uma barraca, e a montamos na varanda. Não estava calor, então daria pra dormir. Nossa comida estava garantida, mas a água potável era pouca, e lá só tinha cerveja e garrafas de cachaça e vodka. Já estava vendo que a coisa ia ficar complicada para o meu lado, porque eu não bebo, e ninguém ia economizar por minha causa.

A casa tinha um gerador a gasolina, mas ninguém sabia ligá-lo. Aí eu fui tentar e consegui, mas o uso era racionado, porque não tinha muito combustível para mantê-lo funcionando. Depois de uns dez minutos, uma das meninas resolveu dizer que era pra desligar, porque ela queria “ver o céu” (que realmente estava muito bonito, sem nuvens e coalhado de estrelas). Nisso, um dos caras resolveu que ia assar uns peixes que ele jurava que havia pescado em um riacho ali perto. Claro que ficou horroroso, duro e seco que nem uma tábua e tão salgado que eu fiquei com os olhos cheios de lágrimas. E não tinha mais água na casa e a birosca, evidentemente, estava fechada. O que fazer? Beber cerveja, ué. Aliás, comecei a achar que era um bom momento para ter o meu primeiro porre na vida, porque aí eu não ia mais lembra da furada em que eu havia me metido. E eu preferia ter uma ressaca histórica do que passar mais um minuto naquele lugar (o que acabou não acontecendo, porque eu bebi pouco e não me embriaguei).

Eu estava pensando nisso quando o cara do peixe veio falar comigo:

- Brother, a sua gata salvou a minha vida!
- Hein?
- É, bicho. Eu engasguei com uma espinha de peixe e ela mandou comer pão, disse que a espinha ia descer. Eu comi e ela desceu mesmo, cara! Irado!
- É? Bom… que bom, né? (quero estar bem longe quando a espinha sair!)
- Só…

Isso tudo aconteceu antes da meia noite. Na verdade, nem vi a virada do ano, porque tinha esquecido o relógio na mochila, e não tinha nenhuma outra referência para imaginar que horas eram. Foi de repente que uma das meninas começou a gritar “feliz ano novo!”, e aí comemoramos.

Não sei que horas fomos dormir, mas eu estava tão cansado que apaguei assim que entrei na barraca, mas acordei cedinho porque, para quem não sabe, barracas de camping são verdadeiros fornos no calor. De manhã deu pra ter a exata noção do estado da casa: um lixo, sujeira por todos os lados, gente largada por todos os cantos, pilhas de latas e garrafas no quintal. Meu Deus, o que eu estava fazendo ali?!

Aí veio a cereja do sundae: o barqueiro não apareceu, porque alguém da casa havia avisado que não era para ele ir no dia primeiro. Ficaríamos lá mais um dia, portanto. Justiça seja feita, a Fê, minha irmã e a amiga dela se adaptaram bem ao ambiente – não adorando, mas elas abstrairam de certos detalhes e interagiram bem com o pessoal, por isso receberam bem a notícia. Mas eu…

O dia primeiro de janeiro de 2005 deve ter sido o mais longo da minha vida, eu só pensava em voltar pra casa. Quando chegou o dia 02 eu já estava com tudo prondo só esperando o barqueiro chegar pra me atirar na traineira e sumir dali. Dito e feito. Depois de duas horas de viagem, com uma parada em Parati-Mirim (uma praia linda, muito gostosa mesmo), chegamos de volta a Parati, e dali pra casa, enfim.

Voltei a Parati depois daquilo, mas não quero nem saber que Cajaíba existe. E nunca mais vi a amiga da minha irmã, nem qualquer outra pessoa da casa. E, apesar de acampar, fazer montanhismo e encarar vários perrengues barra-pesada amarradão, aquela viagem um ponto fora da curva na minha escala de tolerância.

08
set
10

Grandes frias: Parati (I)

Das viagens-perrengue que eu tenho relatado aqui no BS (tá parecendo masoquismo), essa foi, disparado, a mais bizarra. Aconteceu tanta coisa que vou ter de dividir o post.

Foi no réveillon 2004/2005. Minha irmã recebeu um convite de uma amiga para passar a virada do ano em uma casa em uma praia “reservada” em Parati, com amigos dessa amiga, uma das quais era conhecida dela. Ela perguntou se nós queríamos ir, e achamos que seria legal passar um ano-novo fora daquele esquema casa-casa de parentes-casa de amigos-praia de Copacabana. Ia ser uma coisa diferente, para variar. Mas eu não imaginava TÃO diferente.

Dia 31 de dezembro fomos, eu, Fê, minha irmã e a amiga, para Parati. Estacionamos o carro e fomos procurar um barco que nos levasse até a praia, uma tal de Cajaíba (eu nunca tinha ouvido falar, mas como não conheço quase nada de Parati, não fazia diferença nenhuma). Chegamos no ancoradouro para nos informarmos, e veio a pergunta de um barqueiro: qual Cajaíba? Opa, peraí: qual? Tem mais de uma? Olhei para a amiga da minha irmã, que estava nos levando, e ela disse que não sabia. Comecei a achar que tinha alguma coisa errada: como é que se vai a um lugar sem saber onde é e como se faz para chegar lá?

Diante da expressão da amiga (a cara de poodle com dúvida: a cabeça pendente para o lado direito, um ar de “num tô intendêindo” e um ponto de interrogação enorme piscando em cima dela), o barqueiro disse que “só podia ser” Pouso Cajaíba, o local mais procurado daquela região. Então vamulá, né? Sobe no barco e toca pro lugar.

Mais ou menos uma hora de traineira depois, pulando que nem em uma van na Linha Vermelha (eu não enjoei, mas teve uma moça que se vomitasse mais um pouco ia dar perda total), chegamos, mais ou menos às quatro da tarde, no Pouso Cajaíba. Pronto! E agora? Começamos a procurar a tal casa, onde ficaríamos com o pessoal e os amigos da amiga da minha irmã. Tá, e as referências, perguntei. Ah, só sei o nome da menina, que é todo mundo do Rio e que o filho do Ivan Lins tá na casa. Só? Só. A tragédia estava armada.

Claro que ia sobrar pra mim. Lá fui eu de quiosque em quiosque (que eram poucos, na verdade – o lugar não era tão movimentado assim) perguntar pelo pessoal, com as informações precisas que você leu ali em cima. Aí me disseram que tinha uma casa no alto de uma subida que tinha uma turma do Rio. O “alto da subida”, na verdade, era uma pirambeira quase vertical e alta pra burro, no fim da qual tinha um casebre insalubre com uns garotos chapados que, graças a Deus, não eram o pessoal que estávamos procurando.

Depois de quase duas horas perguntando, e de termos furtadas uma bolsa de compras e a canga da Fê, concluímos o óbvio: não era ali. E já eram quase seis da tarde. Eu já estava imaginando a virada de ano em um lugar estranho com gente esquisita quando vi outro barqueiro, com quem fui conversar.

Aí ele me disse que Cajaíba, na verdade, é um “complexo” que engloba quatro praias da região, que podia ser que eles estivessem em Praia Grande Cajaíba, e que ele levaria a gente até lá. Já no desespero, porque faltava pouco tempo para o sol se por, e aí ficaríamos presos onde estivéssemos, fomos. Foi uma viagem curtinha, de uns 10 minutos, no máximo, e chegamos em um pierzinho de madeira. Láááá do outro lado da praia, uma casa branca e duas pessoas sentadas na areia (quando cheguei perto eu vi que eram duas meninas). Pulei do barco e corri até lá, perguntei pela amiga da amiga e era uma delas. Chegamos. Alívio geral, desembarcamos e fomos nos instalar.

(To be continued)

04
set
10

No shopping com JG

O bebê-conforto do João Guilherme ficou pequeno, e, como começou pra valer a fiscalização para o uso de cadeirinhas para crianças nos carros, era a hora de comprar uma nova. Então, toca pro shopping pra procurar um modelo.

Eu imaginei que, como a cadeirinha era pra ele, a melhor coisa a se fazer era levá-lo na hora da compra, para confirmarmos se serviria, se ele ficaria confortável. Então, combinei com a Fê de, depois do trabalho, nos encontrarmos em um shopping que fica perto de casa.

Assim foi feito. Esperei um pouco até que eles chegassem: Fê, JG e o carrinho, o que já começou a me deixar preocupado, vi que ia ter trabalho pela frente.

Existem, basicamente, três modelos de carrinho de bebê, o pequeno, de passeio, o trambolho, que é carrinho/berço/bebê-conforto, e o monstrengo, aqueles que têm volante, buzina, porta malas, capota e tal. O carrinho pequeno, próprio para passeio, é ótimo, porque é leve e dobrável e, quando se fecha, parece um guarda chuva, facilitando muito o transporte. É ideal para bebês um pouco maiores, que já conseguem ficar sentados, e ótimo para os pais, que conseguem manobrá-lo com muito mais facilidade, além de caber em qualquer cantinho.

O pequeno

O trambolho é bem maior e um pouco mais pesado, e, embora também seja dobrável, é muito incômodo, porque ocupa muito espaço, seja em casa, seja no carro. Mas é perfeito para bebês, desde o nascimento até eles começarem a sentar sozinhos, porque são muito confortáveis, reclinam 180 graus e funcionam também como berço (JG dormia nele nos 3 primeiros meses de vida). É muito bom quando eles querem dormir no meio do passeio; os carrinhos pequenos são menos confortáveis e têm inclinação muito limitada (mal comparando, é como se fossem os assentos de classe executiva e econômica dos aviões).

O trambolho

Já o monstrengo… se, por um lado, ele é o mais legal, porque parece um carro de verdade, tem um monte de funções e, por isso mesmo, é muito mais divertido para a criança, por outro é uma catástrofe, porque é enorme, não dobra e não tem nenhuma opção de regulagem. Encontrar um lugar onde ele caiba é um sufoco, colocá-lo dentro de um táxi é um parto (no nosso carro ele cabe bem, porque o porta malas é grande), e, como o assento não tem regulagem e tem o encosto curto, não dá pra criança dormir se ficar com sono. Se João Guilherme quiser dormir no meio de um passeio no monstrengo, temos de pegá-lo no colo e ainda empurrar o carrinho (que pelo menos é o mais fácil de empurrar). Por isso ainda não pudemos aposentar o trambolho.

O monstrengo

Pois bem, JG e Fê apareceram no shopping com o monstrengo. Se era bom, porque não precisaríamos carregá-lo quando ele cansasse de andar, por outro seria bem ruim pelo tamanho do troço (experimenta empurrar um carrinho de supermercado cheio até a boca no meio de um shopping lotado de gente e você vai entender o que eu estou dizendo) e pela dificuldade que teríamos para encontrar um táxi de volta pra casa.

Dentro do shopping começou o drama: Dá pra colocar no elevador, Não, é muito pequeno e tem muita gente na fila, Tem de ser uma viagem só para o monstrengo, Não vai dar, vamos procurar a escada, Olha a escada ali, Não, vou ter de carregar o monstrengo e posso bater com ele em alguém, Olha a escada rolante, Então pega JG no colo que eu seguro o bicho, Entra de costas que é mais fácil de segurar, eu tô acostumada. E a loja era no quarto piso. Ufa…

JG empurrando o monstrengo

Quando chegamos na loja encontramos o modelo de cadeira que queríamos e fiquei em pânico, porque era maior do que o monstrengo. O quadro era o seguinte: JG querendo andar pelo shopping, Fê tentando mantê-lo dentro de um carro de bebê enorme e eu carregando uma cadeira maior ainda. Um horror.

A cadeirinha

Como o garotão era pura disposição e não dava sinais de cansaço, vi que não dava mais pra ficar ali. Levamos a cadeira pra casa e fomos para o calçadão, que àquela hora estava bem menos movimentado, deixá-lo brincar. Com o monstrengo, claro, porque JG adora. Agora, cá entre nós: se eu tivesse um carro igual ao monstrengo quando tinha a idade dele, eu também ia adorar. Então, por mais trabalho que dê, e às vezes enche o saco carregar tanta coisa, ver a curtição do meu filhote faz tudo isso perder a importância.

18
ago
10

Pô, logo eu?

Minha primeira eleição foi em 1993, no plebiscito que decidiu a forma e regme de goveno do Brasil, Monarquia ou República, parlamentarista ou presidencialista, a eleição mais sem noção da história. Desde então, foram quatro eleições para presidente, senadores, deputados federal e estadual e governador, quatro para prefeito e vereadores e aquela sobre o porte de arma. Dez períodos eleitorais ao longo de dezessete anos, sem contar as eleições deste ano. E sempre votando nas mesmas Zona e Seção eleitorais. Eu nem mudei meu domicílio eleitoral quando casei e me mudei pra bem longe do meu local de votação, pra ficar quietinho no meu canto e não ser incomodado.

Pois não é que mesmo assim, depois de todo esse tempo, resolveram me convocar para ser mesário?! Pô, agora?! Não tô meio passado pra isso não?

Eu sempre achei que ser mesário deveria ser coisa de eleitor quqe acabou de tirar o título, ou de voluntário. Por isso, à medida que o tempo ia passando, eu ia me tranquilizando, achando que seria definitivamente esquecido, porque já teria “passado a época” de me chamarem. Me enganei. Parece que é uma espécie de revezamento, todo mundo é chamado para cumprir com seu dever cívico e ficar quites com a pátria. Agora chegou a minha vez. Tentei escapar, mas não deu.

Então não tem jeito: dias 3 e 31 de outubro estarei, às sete da manhã, na minha seção eleitoral para me apresentar e cumprir com meui dever cívico e atuar como Segundo Mesário nas eleições 2010! Oh, quanta emoção! Mas vamos olhar pelo lado bom: provavelmente vão acontecer umas histórias interessantes, que eu, claro, vou colocar aqui no BS.

Interessantes como a que aconteceu na primeira vez em que eu votei em urna eletrônica, acho que em 1996. Havia uma senhorinha mais idosa na minha frente para votar na fila (foi a única vez que vi mais alguém além de mim na seção). Feita toda a verificação preliminar à votação, ela dirigiu-se, cheia de vontade, à urna eletrônica. O problema é que a presidente da mesa havia levado um microondas para aquecer o lanche dos mesários, e a idosa estava, claro, indo na direção dele.

Urna eletrônica

Quando ela estava quase lá a presidente de mesa, que já havia sido alertada pelos mesários, foi até ela e disse: “ah não, dona Fulana, essa urna aqui tá com defeito, vota naquela ali, deixa que eu ajudo a senhora a ir até lá…”

Microondas: não confunda!

Foi uma atitude simpática da presidente de mesa, que se preocupou em não expor aquela senhora ao ridículo. E dos demais presentes, que esperaram até que ela saísse para começarem a rir. Na eleição seguinte eu não vi nenhm microondas por perto.

18
mai
10

Grandes frias: São Luiz do Paraitinga

Um ano depois de ter me enfiado naquele fim de mundo de Carrancas, eu, a Fê, o Igor e a Patrícia, nos metemos em outra encrenca: fomos passar o Carnaval de 2009 em São Luiz do Paraitinga, SP. É aquela cidade que foi destruída pelas chuvas em janeiro deste ano. Ainda tivemos a companhia da irmã da Fê, Juliana, e o marido, Marcelo, que, se já não estão acostumados com o esquema pau-pedra-fim do caminho das nossas viagens (quando elas dão certo), devem ter detestado a furada em que a gente se meteu.

Como tinha sido no ano anterior, fomos, mais uma vez, atrás de esportes radicais com o pessoal do Centro Excursionista Brasileiro, CEB, e mais uma vez quebramos a cara. Pra complicar, havíamos acabado de descobrir que a Fê estava grávida do JG (que, assim, fez a primeira viagem dele com a gente), de modo que ela estava terminantemente proibida de realizar qualquer atividade. Se bem que isso, no final, não faria nenhuma diferença.

Paraitinga é uma cidade que fica às margens da SP-125, a Rodovia Oswaldo Cruz, entre Taubaté e Ubatuba, e tem (tinha) um estilo colonial histórico bem legal. Como é cortada pelo Rio Paraitinga, propício para a prática de rafting, boia-cross ou canoagem, também quer faturar algum explorando esportes radicais. Só que o que se viu foi uma cidade pequena que não tinha a menor condição de receber a multidão que resolveu passar aquele carnaval lá. Faltava tudo: água, energia, até comida. As pensões só conseguiam vender pratos feitos em quentinha (o tal do “marmitex”), os restaurantes não davam vazão ao movimento, a garotada bêbada se amontoava pelo chão, um caos.

“Ah, mas de noite tem o bloco!”, diziam. Bloco? Coitados. Para aquilo ser um bloco…

Tinha tanta gente na cidade, a grande maioria de adolescentes e jovens vindos das cidades do Vale do Paraíba e também de São Paulo, que, por questões de segurança, as agências de turismo da região resolveram suspender a programação esportiva, e a gente só conseguiu fazer um rafting bem básico no Paraitinga (que, aliás, valeu a pena, porque foi bem mais legal do que o do Jacaré-Pepira, em Brotas). E olhe lá.

Pra completar, no nosso hotel havia um bando de adolescentes que voltavam da noitada às 3 da manhã e não deixavam ninguém dormir. Ninguém aguentava mais, mas a administração ou tinha medo de fazer alguma coisa ou não estava incomodada – e nem aí para os demais hóspedes.

Enfim, foi outra fria. Outra cidade que gerou uma expectativa enorme para o carnaval que, no final, não foi correspondida. Conversando com um nativo, soube que Paraitinga era uma cidade para ser curtida no inverno, quando tem umas atrações bem mais interessantes, e dá pra aproveitar bem as atrações turísticas. Por isso, a Fê e eu até tínhamos pensado em voltar lá neste ano, mas devastação de janeiro foi tão violenta que a cidade quase acabou. Pena.

16
abr
10

Grandes frias: Carrancas

Carrancas é uma cidade mineira de aproximadamente 4.500 habitantes, que fica a 286 quilômetros de Belo Horizonte e a 421 quilômetros do Rio. Saindo daqui, pega-se a BR-040 até a altura de Barbacena, onde se dobra à esquerda na BR-265 até Itutinga, e de lá a estrada (bem ruim) para Carrancas.

É uma cidade que pretende se transformar em um polo de ecoturismo e esportes radicais no sudoeste de Minas, talvez uma versão mais rústica de Brotas, que fica em São Paulo. E foi por isso que eu e a Fê, mais o Igor e a Patrícia, nos enfiamos lá no Carnaval de 2008, junto com o pessoal do CEB, Centro Excurcionista Brasileiro, cujo presidente é amigo dela.

O primeiro contato com a cidade foi, tipo assim… é isso? É uma cidade que tem a tradicional Igreja Matriz na praça central, algumas ruas, e só. Depois estranhei o fato de que não havia quase ninguém na rua, só umas senhoras passeando. É que o padre da cidade tinha decretado “toque de recolher”, um retiro obrigatório para todos os homens da cidade durante o carnaval. Pra piorar, a folia mesmo tinha acontecido duas semanas antes, também por determinação do tal padre, e a cidade ia ficar às moscas no período. E, para a consagração do programa de índio, começou a chover sábado de carnaval à tarde e o tempo nunca firmou naqueles dias.

Quando começou a chover estávamos em uma trilha a caminho de uma cahoeira chamada “Racha da Zilda”. Segundo os locais, ela se chama “racha” porque seu formato, em que a queda d’água fica entre duas pedras, lembra, bem… digamos que lembra uma mulher deitada em posição ginecológica. E o “Zilda” é por causa de uma senhora que viveu por lá, mas não prestei muita atenção nisso porque estava imaginando a “racha”.

Chuva é a pior coisa que pode acontecer quando você está fazendo uma trilha que beira um rio, como era o nosso caso. O risco de uma tromba d’água (tem gente que fala “barriga d’água”) é enorme, porque você não sabe se está chovendo rio acima, e ela aparece sem nenhum aviso prévio – quando você nota, ela já está te levando. Então a decisão foi sair dali o mais rápido possível e voltar pra cidade.

A chuva continuou, piorou, melhorou, piorou de novo, melhorou mais uma vez mas não parava. O dia passou e aí veio a dúvida: o que vamos fazer? A cidade toda estava vazia, com toque de recolher em vigor, e ninguém podia fazer bagunça – o pessoal inventou de fazer um bloquinho, mas quando começou a cantoria chegou a polícia, a pedido do padre, e sugeriu que fôssemos embora. Aí nós descobrimos um restaurante chamado Adobe, que nós rebatizamos de “Photoshop”, dirigido por um senhor igual ao Papai Noel, que fazia sucos na Master Juicer da Walita, todo orgulhoso do aparelho e por ter desrespeitado o toque de recolher. Até que a comida passava, era melhor que muita coisa que eu conheço por aqui, mas pro serviço ficar mais ou menos ainda precisava melhorar muito.

No dia seguinte a chuva continuava, mais fraca, e não havia absolutamente nada para se fazer. Metade do pessoal já tinha ido embora para escapar do tédio, mas nós ainda achávamos que o carnaval ainda tinha solução. Fomos para São João D’el Rei, mais ou menos perto, e pegamos um trem até Tiradentes. Só que, entre decidirmos o que fazer, irmos até SJdR, pegarmos o tal trem e chegarmos a Tiradentes, já estava na hora de pegarmos o último trem de volta, então se ficamos 15 minutos em Tiradentes foi muito. Voltamos pro Photoshop e ficamos conversando com o Papai Noel, que disse que eles realmente estavam tentanto transformar a cidade em um centro ecoturístico, mas que com aquele padre estava difícil, com o que eu concordo inteiramente.

No dia seguinte, que resolvemos que seria o último, a chuva persistia, mas inventaram uma caminhhada de 24 quilômetros até uma outra cachoeira, a da Fumaça. Do caminho era possível ver São Tomé das Letras (outra fria que eu conto outro dia). Quando chegamos lá, depois de muita chuva e lama, parou de chover e deu pra aproveitar um pouco a cachoeira. Mas depois de uma meia hora… choveu mais do que já havia chovido até então. Vimos uma magnífica tromba d’água aparecer na cachoeira uns 5 minutos depois do pessoal sair do rio. Ficamos horas lá esperando a chuva passar, pra alegria do dono da birosca local, que acabou ficando sem estoque. Com medo de a luz do dia acabar, porque estávamos sem lanternas, resolvemos voltar debaixo de chuva mesmo (que diferença faria, afinal?). Lá pro meio do caminho de volta, do nada e sem aviso, a chuva parou e surgiu um sol inclemente, quente mesmo. Só podia ser brincadeira. Chegamos na cidade e fomos de novo para o Photoshop, pra despedida, quando voltou a chover de novo. Demos um abraço no Papai Noel e fomos para o hotel dormir. Na terça-feira de carnaval, finalmente, fomos embora de Carrancas.

Em resumo, foi uma decepção. Um saco de viagem, uma decepção completa, dinheiro gasto à toa. Por mais boa vontade que os habitantes tenham, desse jeito a ideia de ser um polo ecoturistico vai continuar sendo só isso, uma ideia mesmo. Porque não há nada, hoteis, restaurantes, comércio, nada. nem o site da cidade é atualizado, ele está igualzinho a como eu o vi pela primeira vez, há mais de dois anos, tirando a data automática. Aí complica, né? Só vontade não basta.




Quem manda na área

Carioca nascido em Brasília, 36 anos, o pai do João Guilherme. Conhecido à boca miúda como o "Oráculo dos anos 80", que, para mim, não tiveram nada de "década perdida", sou destemido e temido nos quiz e joguinos de perguntas e respostas. Também sou viciado em cultura inútil. Vascaíno, adoro sorvete de creme e detesto camarão.

Mantra:

Nunca duvide da mediocridade humana - para baixo não há limites!

A foto do cabeçalho é…

Templo de Saturno, Via Sacra, Roma

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