Acompanhar crianças brincando é muito legal. Na idade em que João Guilherme está (ele completa um ano e nove meses depois de amanhã), por exemplo, elas gostam de brincar perto uma da outra, mas não necessariamente uma com a outra. Interações, mesmo, só na hora da divisão dos brinquedos, que se dá na mais antiga forma de acumulação primitiva de capital, ou seja, “é tudo meu!” e pronto.
Aí você, pai/mãe zeloso(a), preocupado(a) com a futura capacidade de seu rebento de viver em sociedade, chama o pimpolho(a) e explica pra criança que não é assim, que os brinquedos devem ser divididos, que os coleguinhas também querem brincar, e que ele deve socializar, até pra poder aproveitar aquele brinquedo do outro que ele não tem e está com o olho compriiiido pra cima dele.
Esse é o momento socialista, da luta de classes: você explica que todas as crianças são iguais e que não há propriedade privada, pelo menos enquanto vocês estão ali, todos reunidos no mesmo ambiente.
Aí a criança aceita, com muita relutância, dividir alguns brinquedos com os outros, e geralmente são aqueles que ela não quer nem saber, mas acabou levando pro lugar mesmo (os critérios de escolha dos brinquedos que as crianças querem levar para um parque, festa ou qualquer evento coletivo ainda estão sendo analisados). E começa a dividir os brinquedos em uma conta que nunca dá certo e geralmente acaba em briga.
Aí você, cansado de tentar, deixa que o mercado se autorregule, ou seja, que a criançada resolva por si só como organizar a bagunça, mas isso, evidentemente, não dá certo, porque sempre vai ter aquele que vai ficar com tudo e vai deixar a maioria à míngua.
Finalmente, você entende que é pra deixar as crianças brincarem, mas você terá de intervir nos momentos de maior exaltação pra ninguém brigar, disciplinando a bagunça, e percebe que elas têm um método muito particular de divisão dos brinquedos – algumas delas vão adotar esse método por toda a vida, aliás: “o que é meu, é meu; o que é seu, é nosso”.
Alguma dúvida?