Arquivo para a categoria 'Chile'

24
jan
11

Comendo no Chile

Comer no Chile é uma experiência muito frustrante para quem espera uma culinária com o mínimo de qualidade. Os restaurantes são ruins, o serviço é capenga, a apresentação dos pratos é pobre e a comida quase não tem sabor. Por outro lado, quem gosta de fast food faz a festa – a quantidade de lojas do McDonald’s, do Burger king, do Pizza Hut e afins é impressionante, há uma filial do lado da outra nas ruas e mais de uma de cada rede dentro dos shoppings.

A base da culinária chilena é formada por três ingredientes básicos: batata frita, maionese e abacate. Tudo o que se come lá leva pelo menos um desses ingredientes, às vezes os três (inclusive os sanduíches do Burger King), e tudo consegue ter basicamente o mesmo gosto.

Dentre os pratos mais populares do Chile estão o lomo a lo pobre, um pedaço de contra filé assado, geralmente na brasa, acompanhado de batata frita e ovos fritos. Tem esse nome para lembrar dos tempos de vacas magras, especialmente dos moradores do campo, quando se só se conseguia comer um pedaço de carne acompanhado de alguma coisa que enchesse o estômago. É farto, entope mas não satisfaz. Há também a chorrillana, sobre a qual já falei, e acabou sendo a coisa que eu mais gostei de comer por lá, e o lomito, um sanduíche de carne assada com maionese, abacate e salada, servido com batata frita.

Quando o assunto são peixes e frutos do mar, a coisa fica ainda mais dramática. A costa chilena, assim como a peruana, é incrivelmente rica em quantidade e variedade de pescado, mas isso nem de longe significa qualidade à mesa. Fui a restaurantes em Valparaíso e em Santiago que foram bem recomendados pelos moradores (quer dizer, nada de dica de guia interessado em ganhar comissão) e fiquei muito mal impressionado com o que eu vi e comi. Os peixes simplesmente não têm gosto, não têm tempero, nada. O mesmo para os moluscos e crustáceos.

Crustáceos em uma barraca de mercado: decepção

Os restaurantes, por sua vez, são muito ruins. Atendimento lento e impessoal, são caros e geralmente pouco confortáveis ou amistosos ao cliente; serviço ruim, em resumo. O consumidor tem de ser muito desapegado para se satisfazer com aquilo. Engraçado é que quando estávamos no voo da volta vi, na fileira do lado, duas pessoas conversando exatamente sobre os restaurantes no Chile, reclamando sobre as mesmas coisas que estou escrevendo aqui. Então, não deve ser só implicãncia da minha parte.

O Chile não é, definitivamente, um lugar para se comer bem. Para isso vá a outros países, ou fique por aqui mesmo, que tem restaurantes anos-luz à frente dos chilenos em qualidade de comida e atendimento. Depois da nossa (má) experiência no Mercado Central de Santiago, desistimos de procurar restaurantes para comer. A partir dali passamos a ir a supermercados e comprar nosso próprio lanche, até o final da viagem.

23
jan
11

Conhecendo Santiago

Nosso primeiro dia em Santiago começou bem frio, mas com sol, e marcou nossa despedida do valente Enrique, que foi devolvido à Transbetel, a locadora (o site é tosco mas eles trabalham direito). Nós o tínhamos alugado para o período em que estivéssemos na estrada, não faria sentido continuar com ele em uma cidade que tem um sistema de transporte público tão eficiente e não pretendíamos sair de Santiago de novo (decidimos não ir a Valle Nevado porque já tínhamos visto muita neve para a viagem). Foram 2.903 quilômetros rodados em oito dias, uma média diária de 382,875 quilômetros sem nem um pneu furado. Aquele carro deixou saudades.

Por causa do trauma com o frio, decidimos que aquele solzinho da manhã não ia esquentar nada, então saímos cada um com um casacão. Tomamos o metrô em direção à Plaza de Armas, o marco zero de Santiago, nosso primeiro destino na cidade.

Santiago tem um aspecto geral muito agradável, é limpa e organizada, com pouco tráfego (o que causa espanto especialmente por se tratar da capital e maior cidade do país), muitas árvores, ruas amplas e habitantes educados. O que falta é sinalização, seja no trânsito, seja de indicação e identificação das atrações turísticas. Nesse aspecto ela ainda tem muito para evoluir. As próprias placas de identificação das ruas e praças são muito pequenas e de difícil visualização, então consultar os mapas da cidade e perguntar as direções é obrigatório. Por outro lado, quase todas as atrações turísticas são bem servidas de transporte público e quase tudo pode ser feito a pé – do jeito que eu e a Fê gostamos. Parece, em resumo, uma cidade boa para morar.

O metrô de Santiago é interessante: tem cinco linhas, cada uma idenitficada com cores diferentes (1 – vermelha, 2 – laranja, 4 – lilás, 4a – azul claro e 5 – verde. Não me perguntem sobre a 3 que eu também não sei) e cobre praticamente toda a área da cidade que fica do lado esquerdo do Rio Mapocho (no lado direito você tem de se virar). Tem integrações que levam a quase todos os lugares, e estações em todos os pontos importantes da cidade, à exceção de La Chascona (a casa de Pablo Neruda), por motivos político-ideológicos, e do Cerro San Cristóbal. Suas estações são identificadas por totens com três losangos vermelhos, e todas são amplas, confortáveis e bem sinalizadas, de modo que você sempre consegue saber exatamente para onde está indo. O preço da passagem varia entre 490 e 600 pesos, ou R$ 1,75 e R$ 2,15, de acordo com o horário.

Mapa do metrô de Santiago. Que inveja...

Os trens (do metrô) não são um exemplo de conforto, mas não comprometem. Não têm ar condicionado, mas em uma cidade que não é quente como o Rio, por exemplo, basta deixar as janelas basculantes abertas que fica bom. Também não há portas separando os vagões, então o passageiro pode circular livremente. O que incomoda é que as rodas das composições têm pneus de borracha maciça, que fazem um barulho horrível quando ele anda.

Estação do metrô de Santiago

A Plaza de Armas é uma praça muito grande e bem cuidada, usada como ponto de encontro, apresentações artísticas e culturais ou parada para descanso em algum de seus vários bancos; nela ficam o Museu Histórico Nacional, a Catedral da Cidade, com grandes altares feitos de ouro e prata extraídos das minas do Peru e da Bolívia, principalmente, e a sede dos Correios, dentre os prédios públicos mais importantes. Lá também foram colocadas, no chão, três placas de bronze com plantas de Santiago de 1580, 1640 e 1710, mostrando o crescimento da cidade.

Plaza de Armas

Dali seguimos, a pé mesmo, para o Palácio de La Moneda, que tem esse nome porque antes de ser transformado na sede do Executivo Nacional, em 1845, era a sede da Casa da Moeda chilena – função que continuou a ser desempenhada no mesmo local ate 1929. O prédio também foi residência oficial do presidente da república até 1958. A construção é bonita, embora não seja imponente como outros palácios presidenciais, e o melhor é que as visitas são abertas ao público – embora, para nosso azar, nos dias em que estivemos em Santiago as visitas estavam suspensas por causa da presença de uma missão diplomática (essa pelo menos foi a explicação que nos deram quando tentamos entrar).

La Moneda

O Palácio fica em uma praça grande, cercada de estátuas de presidentes anteriores do Chile (não vi a de Salvador Allende) e muito movimentada por turistas ou pessoas que dão uma pausa por ali na hora do almoço. Isso é muito comum, porque o palácio fica em uma região central, bem no centro da cidade, perto de tudo, e assim o palácio está sempre no caminho de quem quer fazer alguma coisa naquela região, seja a trabalho, seja a passeio.

Naquela altura, com o sol a pino, já estava calor, e aí nos arrependemos de ter levado os casacos. Tivemos de carregá-los a partir dali (resolvemos não voltar para o hotel para guardá-los por preguiça mesmo). Já era hora do almoço, e resolvemos comer, e seguimos para o Mercado Central, recomendado por todos os guias de viagem e pelos locais também.

Foi decepcionante. Aliás, a comida chilena foi, disparado, a maior decepção da viagem. Quando chegamos ao Mercado Central escolhemos um restaurante que exibia caranguejos centola (aqueles rosados, enormes) em uma vitrine giratória. Mas já vou explicando que um centola é só para grupos de pelo menos quatro pessoas. Para um casal, especialmente em que um dos dois come pouco, é puro desperdício. Então pedimos um prato de peixe e um tipo de mini-caldeirada de frutos do mar que perdem feio para qualquer restaurante médio daqui tanto em apresentação do prato quanto em sabor.

Caranguejos centola expostos

09
dez
10

Viña del Mar

Impressionante como duas cidades vizinhas que não têm nenhuma divisa geográfica clara entre si podem ser tão diferentes. Não há uma placa indicando o limite entre os municípios de Valparaíso e Viña del Mar. Uma é a continuação da outra, mas a mudança de tudo – arquitetura, ambiente, cenário – é tão drástica que chega a ser difícil de entender o que aconteceu, porque de repente as construções amontoadas e acanhadas de uma se transformam em amplas casas e prédios da outra, sem nem um intervalinho pra você se acostumar com a ideia.

Viña del Mar; ao fundo, Valparaíso

Se Valparíso é uma cidade portuária, feia e bagunçada, Viña del Mar é a prima rica, riquíssima, aliás, para onde Santiago se muda no verão. É um balneário muito bonito, organizado, claro e cheio de construções amplas, bonitas e provavelmente (muito) caras.

Não levamos nem quinze minutos entre nosso hotel em Valparaíso e a Avenida España, uma via litorânea ampla, separada da praia por um muro de pedras. Ela continua sentido norte e muda de nome, para Avenida Perú, e aí vira um enorme calçadão cheio de opções de lazer, quiosques, barracas, brinquedos e ciclovia, tudo limpo, organizado e funcionando, um exemplo que deveria ser seguido pela prefeitura do Rio.

O calçadão da Avenida Perú

Quanto à praia, muitas semelhanças com relação às do Rio. Até escultores de areia com pedidos de colaboração tem lá. Diferente mesmo só o oceano, o Pacífico, que eu finalmente conheci. Fiquei admirando a cena quando me toquei que tinha bastante gente na areia, mas ninguém na água. Só podia significar uma coisa. Fui lá experimentar e, putz, que água gelada era aquela?! Muito, mas muito mais fria do que eu imaginava, mais até do que a famigerada Praia Grande de Arraial do Cabo, a água mais fria da Região Sudeste. Mais um pouquinho e daria pra trocar o surfe pelo bobsled. Pena, porque eu tinha a leve pretensão de dar um mergulho (só pra tirar onda de que tomei banho de mar no Pacífico), mas daquele jeito não havia a menor condição.

Um escultor de areia em ação

Ficamos caminhando por aquele calçadão um bom tempo, admirando a cidade e a tonalidade intensa do azul do Pacífico, que compunha um cenário lindo com o dia ensolarado. Depois pegamos Enrique e seguimos adiante, para conhecer mais. Não sei mas, pelo que eu vi da orla da cidade, acho que deve ser parecido com a Califórnia (posso estar falando uma grandessíssima bobagem porque nunca fui à Califórnia, mas que eu achei parecido com o que eu vejo nos filmes, isso eu achei).

Rodamos mais um pouco pela cidade, e percebemos que ela tem mesmo uma atmosfera bem balneário mesmo, à vontade, leve, alegre. Na alta temporada a cidade deve ferver, porque há boates, restaurantes e bares em profusão, todos com uma bela produção, só esperando receber os turistas. Deu vontade de voltar lá em janeiro, quando o verão está bombando e, segundo nos disseram, as temperaturas são bem elevadas – mas nada que encoraje a entrar naquela água.

Viña del Mar e o Pacífico

05
dez
10

Em Valparaíso

Saímos para conhecer Valparaíso em um frio danado, e com a chuva ameaçando voltar. Nosso hotel ficava em frente à sede do Congresso Nacional na cidade, onde é dada posse ao presidente da república, um predio meio sem graça, mas conservado com o maior orgulho. O Chile está comemorando os 200 anos da independência, então os símbolos, monumentos e prédios nacionais estão em alta; além disso, o patriotismo recebeu uma turbinada com a recuperação das regições afetadas pelo terremoto de janeiro e, principalmente, do resgate dos mineiros, em outubro.

O Congresso Nacional em Valparaíso

Tem gente que acha Valparaíso uma cidade feia. Eu não. Achei valparaíso uma cidade muito feia! nem dá pra dizer que é uma cidade portuária, tá mais para um porto cercado por um amontoado de casas, sem ordem, critério ou beleza. Bem ruim.

Valparaíso foi um porto movimentadíssimo para a economia mundial até o início do século passado, e ainda é o principal porto do Chile, mas perdeu muito do movimento e da importância depois da inauguração do Canal do Panamá, que tornou desnecessário dar a volta no continente pelo sul, contornando o Estreito de Magalhães, para se atingir o Pacífico. Hoje muitos navios não cabem mais no Canal e a passagem pelo Estreito voltou a ser necessária em alguns casos, mas nem assim o porto voltou a ter o movimento que tinha, e se esperava que voltasse, porque os navios maiores têm maior autonomia, e não é necessário fazer tantas escalas em uma viagem.

São poucas as atrações turísticas na cidade. Há uma espécie de “calçadão”, que vai do porto da cidade até Viña del Mar, bem ao lado. Esse calçadão é ladeado pelo metrô da cidade, que só tem uma linha, que vai e volta. Alás, o sistema de embarque e desembarque é interessante: se você estiver indo na direção do porto, para a esquerda, olhando para a praia, você, ao desembarcar, tem de esperar o trem sair, o sinal abrir e atravessar os trilhos a pé, para alcançar a rua. Mais distante do porto o calçadão se transforma em uma ampla área de lazer e, para minha surpresa, percebi que os moradores de Valparaíso e Viña del Mar gostam muito de correr.

Valparaíso

São muitos morros, ou “cerros”, que debruçam sobre o mar, lembrando bastante a geografia de Salvador, naquele esquema Cidade Alta – Cidade Baica. O mais badalado deles o Alegre, e os acessos a eles podem ser feitos pelas ladeiras intermináveis da cidade ou pelos elevadores, misto de plano inclinado e Elevador Lacerda, cujos ingressos custam entre 100 e 200 pesos (entre 30 e 50 centavos). Subimos o Cerro Alegre pelo Elevador “Rainha Victoria”, um dos mais antigos da cidade, que faz um percurso muito curto na diagonal (só há um elevador vertical na cidade). O cenário lá em cima lembra muito Santa Teresa, e tem-se uma visão panorâmica bem ampla de toda a região.

Se o turista preferir subir os morros pela ruas, pode pegar os “colectivos”, que são táxis-lotada. Cara um leva 4 passageiros, ao preço de 400 pesos por cabeça, e são organizados em linhas com itinerário definido. Muito parecido com as nossas vans e kombis, inclusive pela pseudo-legalidade tolerada pela prefeitura. Foi com um desses que chegamos à principal atração turística de Valparaíso: La Sebastiana, a casa de Pablo Neruda, hoje transformada em museu, assim como as demais, mas é o único visitação livre, com o uso de audioguides, com informações objetivas, precisas e em português quase sem sotaque – bem ao estilo do ideal do Leandro, que acha, com toda a razão, que os audioguides são auxiliares na visitação do museu, não uma atração em si.

La Sebastiana

La Sebastiana foi a casa de praia de Neruda, que a comprou e concluiu quando já era rico e famoso. É uma casa super agradável, confortável, bonita e bem decorada, com vista ampla para o mar, e faz você se3 sentir um visitante bem à vontade. É a antítese de Valparaíso, que ele, dizem, adorava. Cheguei a comentar como era estranho Neruda ter uma casa como aquela em uma cidade tão feia, mas acho que essas contradições são parte da essência dos poetas.

Depois da visita a La Sebastiana fomos comer, achando que os peixes e os frutos do mar de lá seriam uma coisa de outro mundo, pela propaganda que fizeram. Na verdade, não são muito diferentes do que estamos acostumados a comer em bons restaurantes aqui. O restaurante ficava na beira da praia, então, depois de saírmos, fomos dar uma olhada para conhecer, mas desistimos logo, porque ventava bastante, ainda fazia muito frio e a paisagem não ajudava. Demos mais algumas voltas, mas já estava anoitecendo e estávamos cansados de brincar de pinguim. Voltamos para o hotel, no dia seguinte conheceríamos Viña del Mar, antes de voltar para Santiago.

O Elevador Rainha Victoria, que leva ao Cerro Alegre

02
dez
10

Valparaíso

Saímos de Puerto Montt com mais de 1.100 quilômetros de estrada pela frente. Como tínhamos ficado menos tempo do que o planejado em Pucón, por causa da chuva, resolvemos fazer uma alteração no nosso trajeto e ir até Valparaíso e Viña del Mar. Estávamos mais animados porque a previsão do tempo era de sol e um calorzinho por aquelas bandas, o que era muito bom pra variar o frio dos últimos dias.

Ao contrário do que fizemos na ida, a volta seria toda feita pela Rota 5. A ideia original era cobrirmos toda a distância em um dia de viagem (meu parâmetro era a viagem entre Rio e Brasília), mas como só conseguimos pegar a estrada às 11 da manhã, muito mais tarde do que pretendíamos, achamos que, apesar de revezarmos a direção, seria melhor fazer um pernoite em algum lugar no meio do caminho, por segurança. Escolhemos voltar para Chillán, para não perder muito tempo procurando onde dormir.

Só que a gente foi indo, indo… e iu! Passamos pela entrada de Chillán ainda cedo, e resolvemos continuar. Quando vimos, já estávamos perto de Santiago, então vimos que dava pra seguir até o final. Ajudou bastante o fato de que, nesta época do ano, só anoitece às nove da noite no Chile, então só pegamos noite fechada mesmo na estrada quando já estávamos perto do fim da Pan Am, uns 100 km antes da Américo Vespúcio. Faltavam mais ou menos 200 km até Valparaíso, o que, do jeito que o Enrique ia, daria pra cumprir em mais ou menos duas horas.

Daria, se eu não tivesse me perdido de novo na Américo Vespúcio. Passamos mais uma vez da saída certa para a Estrada, a Rota 68, o “Camino a Valparaíso”, e tivemos de fazer um retorno depois de me informar em um posto de gasolina. Nada muito dramático, mas eu já estava cansado, e isso me irritou.

Foi nossa despedida da Rota 5, uma das melhores estradas em que já dirigi. Eficiente como poucas, é muito bem servida de postos de gasolina com serviços, todos eles com internet wi-fi de alta velocidade grátis (por causa disso, eu nem abri o mapa rodoviário que levei – era só abrir o Google Maps em qualquer lugar). Ainda por cima ela tem, como eu já disse, a Cordilheira dos Andes, que fica ainda mais bonita ao pôr do sol, como companhia constante. É uma das coisas no Chile de que mais vou sentir saudade.

A descida da Rota 68 lembra muito a descida de São Paulo para Santos. É outra estrada em perfeitas condições, mas o pedágio é ainda mais caro do que o da Pan Am: enquanto naquela os preços variavam entre 1.900 e 2.000 pesos, na 68 foram duas paradas a 2.200 cada. Apesar de ser mais sinuosa, em descida e com túneis, o limite de velocidade é alto, e, como o movimento era baixo, deu pra manter uma velocidade razoável e segura.

Chegamos a Valparaíso às 11 e meia da noite. Mil, cento e trinta e sete quilômetros, contadas as paradas para abastecimento, almoço, lanche e a errada do caminho percorridos em doze horas e meia! E Enrique, ao contrário de mim, não dava o menor sinal de cansaço. A primeira impressão não foi muito legal, parecia que estávamos rodando pela Praça Mauá; o visual não era nada agradável àquela hora da noite. Pedir informações, só em postos de gasolina muito movimentados.

O pôr do sol atrás dos Andes

Era hora de procurar onde ficar (não reservamos nada pela internet porque era baixa temporada e o guia de mão dizia que não era difícil encontrar onde ficar por lá. Eu devia ter jogado aquele livro fora). Levamos quase duas horas procurando hotel, em parte porque nos perdemos na cidade várias vezes, em parte porque não encontrávamos um lugarzinho decente para descansar. Aí eu comecei a ficar nervoso, porque em cada esquina que virávamos tinha mais gente esquisita.

Quando eu já estava perdendo a esperança e começando a considerar dormir no carro mesmo e só procurar um hotel no dia seguinte, vimos uma pensão, cuja dona nos atendeu e recomendou um lugar a duas quadras dali. Chegamos lá e vimos um prédio velho com pé direito enorme, mas bem decorado e com um certo charme. Fomos recebidos por um senhor que parecia fazer parte da mobília do lugar, muito simpático, nos instalamos e fomos dormir.

Quando acordamos, o susto. Fazia um frio de rachar, que só piorava com o vento que vinha da praia. Na véspera, quando chegamos, tinha chovido horrores, com direito a alagamentos em Santiago. Pô, e a previsão do tempo “eficiente” de antes, você pode perguntar. Verdade, mas foi a exceção que confirma a regra: todo mundo foi pego de surpresa com o clima, que não é comum em novembro, segundo me disseram. É o tal “isso nunca aconteceu antes”. Fomos conhecer o lugar.

26
nov
10

Puerto Varas – Puerto Montt

A previsão do tempo no Chile é mesmo eficiente. Quando acordamos vimos que estava chovendo, uma chuva fina, com neblina pesada e frio, muito frio. Não dava para ver nem o Villarrica, que se pode ver de toda Pucón. Em pouco tempo, a chuva apertou. Isso inviabilizava nossa visita ao Parque Nacional Huerquehue, como de resto nossa permanência em Pucón. Nâo haveria mais nada para se fazer na cidade com chuva e aquele frio fora de temporada. Então resolvemos mesmo ir embora e antecipar nosso destino seguinte, Puerto Montt, passando antes pelas cidades que margeiam outros lagos da região, como o Calafquen, onde fica Lican Ray (pronuncia-se “rái”), o Panguipulli (pronuncia-se “panguipúlhi”), com a cidade homônima, e o Llanquihue (pronuncia-se “lhanquirrué), onde estão Frutiilar e Puerto Varas.

Lican Ray e o Lago Calafquén, sob chuva

Pode parecer muita coisa, mas não é um trajeto longo. No total são pouco mais de 315 quilômetros entre estradas vicinais e a Rota 5. A Pan Am só é encontrada de novo na altura de Los Lagos; antes disso viajamos pelo “Camino a Coñaripe” e depois pelo “Camino a Panguipulli”, que, além da paisagem muito bonita, apesar da chuva, ainda permitiu que fugíssemos dos pedágios da Rota 5, economizando uma boa grana.

A escolha do trajeto tinha ainda outra razão: tentar visitar o vulcão Osorno, que fica às margens do Lago Llhanquihue, e subi-lo até onde desse. Ao contrário do Villarrica, o Osorno, um pouco menor (2.652 metros), está adormecido, sem registros de erupções desde 1835.

O Vulcão Osorno. Pena que não deu

A paisagem ao longo dos dois “caminos” é tão bonita que nem se sente a viagem. São videiras, jardins de flores, lagos e fazendas. Mas o tempo ruim não deixou que sequer víssemos o Osorno. Pena. Pelo menos ainda pudemos apreciar um pouco da orla do Llanquihue e do Calafquen, antes de chegarmos a Frutillar, uma cidade de colonização alemã simpática e organizada, com casinhas de madeira que lembram uma cidade de brinquedo. Demos umas voltas, tiramos umas fotos e seguimos para Puerto Varas.

A chuva não arredava pé, e o frio castigava. Não havia termômetros nas ruas, como estamos acostumados a ver no Brasil, então nosso parâmetro era o termômetro do painel do Enrique, que marcava 11 graus. Considerando uma margem de erro e o vento, acho que a temperatura externa devia ser de uns 8 graus, mas a sensação térmica era de bem menos. Fomo almoçar, e procuramos um restaurante mais movimentado na região central da cidade, o que foi difícil de encontrar, porque estavam todos vazios. Então escolhemos um que pareceu mais interessante e entramos. Mas sobre a comida do Chile reservei um post à parte.

As casas de madeira de Frutillar

Puerto Varas tem uma avenida chamada “Costanera” que contorna a orla sul do lago Llanquihue, de onde se tem uma vista linda do lago e, dizem, do vulcão Osorno, mas isso não deu pra conferir. Como não dava para caminhar por ela, demos mais uma volta com Enrique e vimos o que era possível, consideradas as condições do tempo. Seguimos, então, para Puerto Montt, capital da Região dos Lagos, cidade portuária, feia e que é a porta para o extremo sul do Chile, porque ali começa a Carretera Austral, que leva até a Patagônia chilena. Puerto Montt também leva ao arquipélago de Chiloé, o maior do Chile, cuja visita dispensamos porque demandaria mais tempo de viagem.

Chovia demais e fazia ainda mais frio do que antes, além disso, já estava anoitecendo. Fomos procurar um hotel, e achamos um ótimo, bem perto do porto, que estava em reforma, e do terminal de ônibus. A hospedagem seria só para pernoite, porque no dia seguinte começaríamos a viagem de volta, mesmo porque não haveria nada mesmo para se fazer por lá. Ir até ali tinha valido a pena porque vimos paisagens incríveis e conhecemos cidades muito interessantes, mas era hora de tomar um banho quente e dormir, porque o dia seguinte seria longo.

23
nov
10

Tour de la zona

Além do vulcão Villarrica e do lago homônimo, Pucón oferece muitas outras atrações nas redondezas, bastante interessantes e que merecem uma visita. Estes lugares podem ser visitados por conta própria, mas as agências de turismo oferecem visitas guiadas, em van, a cavalo ou de bicicleta, um pacote que é chamado “tour de la zona”, porque abrange a zona externa da cidade, algo como a “Grande Pucón” – e vocês aí, pensando besteira…

As principais atrações do “tour de la zona” são os “Ojos de Caburgua”, uma nascente que mais parece uma cachoeira, onde a água brota de um lençol freático e forma uma piscina que fica com um tom azulado no melhor estilo “gruta azul”; o Lago Caburgua (pronuncia-se “cabúrgua”, tanto aqui quanto nos Ojos de Caburgua), que tem duas praias, a Negra, assim chamada por causa da areia escura, que é a praia da região, e a Blanca, que fica em um condomínio fechado, de acesso restrito; e as termas, que são três: Trancura, Huife e Los Pozones, recomendada por todos os locais como a melhor. Há, ainda, o Parque Nacional Huerquehue (pronuncia-se “uerquerrué”), um pouco mais distante.

Ojos de Caburgua

Como não queríamos gastar à toa com um passeio que poderíamos fazer nós mesmos, pegamos Enrique e fomos percorrer “la zona”. O primeiro lugar que paramos foi Ojos de Caburgua, realmente um lugar muito bonito, com uma estrura legal para se passar uma tarde fazendo um belo piquenique. A nascente tem mirantes para os turistas ficarem admirando o belo tom azul da água, que varia, dependendo da intensidade e do ângulo de incidência do sol, desde um azul piscina até um lindo azul turquesa. Para completar o cenário, de qualquer lugar dali pode-se ver o vulcão Villarrica. Realmente dá pra ficar ali algum tempo, contemplando o espetáculo.

De Ojos de Caburgua seguimos para o Lago Caburgua, para conhecer as praias. Primeiro a Negra, que é a, de fato, frequentada pelos habitantes de Pucón e região. Quando chegamos havia um grupo grande de meninas tomando banho no lago. Parecia uma excursão de uma escola só para moças. Fui, então, ver como estava a temperatura da água, e fiquei impressionado em ver como era gelada. E as meninas empolgadíssimas! Algumas fotos, paisagem bonita, com o onipresente vulcão Villarrica dominando o cenário, mas nada de mais. Fomos então à Playa Blanca, mas cobraram 1.500 pesos para nos deixar entrar. Desistimos e seguimos para as Termas Los Pozones.

o Villarrica, visto de Ojos de Caburgua

As Termas Los Pozones são um grande complexo de piscinas de pedra com águas termais, que podem chegar a até 42 graus Celsius – e isso é muito quente! É um lugar organizado e bonito, fica aberto até 1h30m da manhã na baixa temporarada (funciona 24 horas durante o verão), e tem ótima estrutura com banheiros e vestiários. Só senti falta de informações sobre a temperatura ou composição quiímica da água nas piscinas, que não existem nem nas placas de identificação das piscinas nem no folheto de instruções e boas vindas que você recebe na recepção.

O preço do ingresso varia de acordo com a hora da entrada. Na baixa temporada, custa 4.000 pesos por pessoa até as 20 horas, e 5.000 pesos das 20 horas em diante. Não são fornecidos chinelos, toalhas nem nada: cada usuário que leve o seu. Os guarda volumes são franqueados a todos os usuários.

Logo na entrada o usuário se depara com uma grande placa de madeira, com as instruções básicas de utilização das termas, que também estão no folheto entregue junto com o ingresso: o tempo máximo de permanência nas termas é de três horas, o banhista não deve ficar na piscina por mais de 15 minutos ininterruptos, não se deve mergulhar, cuidado com as crianças, comida e bebida são proibidas nas piscinas, assim como garrafas e copos de vidro, mas a que mais chama a atenção é a que está escrita com o maior destaque, dizendo ser estrita e terminantemente proibido fazer sexo, dentro ou fora das piscinas. Aaahhhh…

Estávamos aproveitando uma das piscinas quando ouvinos uma algazarra. Era uma garotada israelense tocando a maior zona, com copos, garrafas de cerveja e de pisco, pacotes de salgadinhos. e entraram bem na nossa piscina. Acabou o sossego. Para quem pensa que brasileiros é que são indisciplinados e baderneiros, olha aí. Aliás, americanos também não dão nenhum exemplo em educação. Um dos garotos entrou na piscina de cueca e virou uma garrafa de cerveja na cabeça, para refrescar. Outro, mais educado, tentou puxar assunto, disse que já tinha vindo ao Brasil e conhecido a Amazônia e Trancoso, mas o papo não foi muito longe. Trocamos de piscina.

Depois de ficarmos lá um tempo, relaxando depois da subida ao vulcão Villarrica, voltamos para o hotel, e vimos que a previsão do tempo era de chuva para os três dias seguintes. Botamos as barbas de molho e esperamos para ver; se chovesse seguiríamos viagem, porque as atrações de Pucón são todas a céu aberto, e com chuva ficar na cidade seria inútil.

18
nov
10

A subida do Villarrica (II)

Foi bom termos desistido naquele lugar: se avançássemos um pouco mais passaríamos a última base e ultrapassaríamos o “ponto sem volta”, assim não poderíamos descer, só depois que o grupo atingisse o cume e voltasse. Seriam mais de duas horas esperando, sem ter o que fazer, no frio.

Enquanto esperávamos o guia que nos levaria de volta, ficamos conversando com o que nos acompanhava, e que continuaria a subida no lugar do outro. Ele nos disse que, do jeito que as coisas estavam ficando, seria muito difícil que chegassem ao cume, porque o frio estava aumentando, o vento estava ficando forte demais e a fumarola estava vindo na direção do pessoal, e logo o ar ia ficar irrespirável. Perguntei sobre a erupção de 1984, e ele explicou que o problema não é a lava, que para de escorrer logo, mas a avalanche causada pela neve derretida pela lava quente, que pode chegar até o lago Villarrica. Foi isso, segundo ele, que dizimou uma aldeia que existia do outro lado do vulcão na erupção de 1971 e matou todos os habitantes. Se a avalanche tivesse decido sobre Pucón o estrago teria sido muito maior, e mais gente poderia ter morrido.

Caminho de lava coberto de neve

O guia começou a demorar, e o outro, que nos acompanhava, sugeriu que descêssemos uns 200 metros até uma casinha azul, onde ficava a casa de máquinas do teleférico, para nos protegermos do vento, enquanto ele ia subindo para render o cara. Fomos, então. Mais importante: deveríamos seguir a trilha do trator de neve, aquela mesma que eu disse que estava mais fofa do que o resto do caminho, e que era mais difícil de subir. O motivo era exatamente esse: como a neve estava fofa, os pés afundariam a cada pisada, mas o risco de cairmos e sairmos deslizando sem controle era bem menor.

Um esclarecimento: quem inventou aquele ditado “para baixo todo santo ajuda” nunca fez uma trilha, escalada ou escalaminhada na vida. Eu já tinha concluído isso há muito tempo, mas na neve a descida é muito pior! A razão é simples: o terreno, na descida, é totalmente diferente do que é na subida, a forma de pisar é diferente, o centro de gravidade do corpo está deslocado para trás, e não para a frente, você está cansado da subida e ansioso para terminar de descer e chegar logo, o que atrapalha sua concentração. Na neve, além disso tudo, você ainda afunda e escorrega, e a bota, de material rígido, limita demais seus movimentos.

Descemos até o ponto marcado e ficamos esperando. Realmente ventava menos e estava bem menos frio do que lá em cima. Aí eu realmente comecei a curtir a paisagem. Se ali já era aquele espetáculo, imagina como deveria ser lá no topo? E olha que Pucón não está tão alta assim: são só 180 metros acima do nível do mar, e, por consequência, a cratera do Villarrica está a três mil metros de altura.

Note as pessoas, no pé da foto. Aquela pedra grande, no alto, à esquerda, é a metade do caminho

Depois de uns minutos o guia chegou, trazendo a outra desistente (uma senhora austriaca que mora na Holanda), e fomos em frente. Foi mais uma hora de descida, mais ou menos, durante a qual morri de rir vendo a Fê, que não fala nada de inglês, se esforçando para conversar com ela, que foi muito simpática e se esforçou para entender alguma coisa.

Arredondando, a brincadeira durou umas cinco horas, e foi muito legal, apesar de não termos conseguido chegar ao topo. Mas, pelas fotos que eu vi, a subida parece ser muito mais fácil em janeiro ou fevereiro, quando tem bem menos neve na trilha, e muito mais gente subindo. Então, fica a dica: deixem para subir o Villarrica no verão, quando é muito menos complicado, mas não chega a ser uma moleza, o que mantém a graça do passeio.

17
nov
10

A subida do Villarrica (I)

Às cinco e meia da manhã estávamos prontos, em frente à agência de turismo, esperando a van que nos levaria à base do vulcão Villarrica. O grupo era composto de canadenses, holandeses, austríacos, chilenos e dois brasileiros (eu e a Fê) cujo único contato com a neve em toda a vida havia acontecido dois dias antes, com uma brincadeira rápida em Termas de Chillán.

A meteorologia estava certa, e o dia amanheceu sem nuvens, mas com um frio de rachar. Eu estava vestindo uma calça térmica, uma calça de moletom, a calça do anorak, uma camisa térmica, duas camisetas de malha, uma de manga longa e outra de manga curta, um casaco, a jaqueta do anorak, a balaclava para proteger as orelhas, luvas e um par de botas que deviam pesar, cada uma, uns 3 quilos. Mal conseguia me mexer, e ainda tinha de carregar a mochila com o resto do equipamento – crampons (ganchos para se fixar na ponta das botas para se andar no gelo), polainas para proteger os pés, o piolet (uma machadinha para se apoiar na neve, quando o terreno fica íngreme) e a prancha de plástico para a descida em esquibunda -, além de dois litros de água e comida.

Chegamos à base da montanha, montamos o equipamento e iniciamos a caminhada. Seríamos acompanhados por três guias, um abrindo a fila, outro no meio e outro atrás, para vigiar os retardatários e ajudar os que desistissem da subida. A falta de prática com o terreno, a rigidez das botas e o peso da mochila fizeram com que eu sentisse um grande cansaço logo no início, o que eu já esperava que fosse acontecer, pela experiência de trilhas e escalaminhadas anteriores. Foi preciso um pouco de paciência para encontrar um ritmo confortável e me aquecer.

O Villarrica. À direita, o teleférico

Nos primeiros vinte minutos do trajeto o grupo sofreu as primeiras baixas: uma menina chilena, acompanhada pelo pai, desistiu, e ele acabou ficando com ela. E a subida ainda nem havia começado. Pior era ver as cadeiras do teleférico bem em cima de nós.

Andar na neve é como subir uma grande duna de areia, só que com muito frio e com botas pesadíssimas. Você progride muito pouco a cada passada, por isso o ritmo tem de ser lento e constante. O principal é deixar a pessoa à sua frente na fila trabalhar para você, e pisar nas pegadas que ela deixou, onde a neve está mais compacta, consequentemente, você vai se esforçar menos.

Outra coisa em que se deve prestar atenção é o suor. O anorak, feito de material impermeável para proteger o corpo do vento, é um forno, e, com o esforço, você vai acabar suando. Por isso é importante não se esforçar demais, para suar o mínimo possível. Se você suar demais, quando parar, o suor vai esfriar, e a sensação térmica vai piorar muito. Por isso as paradas são controladas – cerca de dez minutos para cada pouco mais de uma hora caminhada.

Também por causa do suor a hidratação é importante, e não adianta pensar em beber neve, porque ela é contaminada pelo solo, vegetação ou sujeira e, em caso extremo, você pode acabar com uma infecção intestinal no meio da subida, o que é muito ruim. E ainda tem a alimentação, que é fundamental porque você gasta muita energia para fazer a caminhada. Todos os guias recomendam que você leve chocolate ou barras de proteína.

O verso da foto anterior. Ao fundo, o Lago Villarrica

Protetor solar também é muito importante, porque a neve reflete os raios do sol, mais do que a areia, e acabamos nos queimando tanto por cima, pela exposição direta, quanto por baixo, pelo reflexo da luz na neve. É como um forno de microondas natural. Se você bobear, não vai sentir que está queimando, por causa do vento e da baixa temperatura, mas vai ficar todo ardido.

Quando a subida começou eu vi uma trilha deixada pelas esteiras do trator de neve que tinha passado havia pouco tempo, e, esquecendo a regra de que deve-se pisar na pegada já existente, fui para lá, achando que seria mais fácil de caminhar. Foi uma enorme besteira, porque as esteiras haviam revolvido a neve, que estava mais fofa do que o rastro que eu estava seguindo. Um desperdício de tempo e energia.

Começamos então a subida em zigue-zague, para diminuir o esforço. Isso aumentaria bem a distância percorrida, mas a subida seria mais fácil. Pouco depois faríamos mais uma parada para descanso, hidratação e fotos, foi quando eu vi uma coisa que me deixou impressionado: um grupo de cinco pessoas que subiam de camiseta ou regata! Pô, não acreditei! Eram israelenses, e eu fiquei mais besta ainda, porque sempre achei que Israel era um lugar muito quente e, assim, eles sentiriam o frio tanto quanto nós. pelo visto, me enganei redondamente. Ou então os caras são doidos mesmo.

Nós estávamos vestidos assim...

Depois de mais de três horas andando, o vento aumentou, a temperatura diminuiu muito e as pernas não respondiam mais. As botas estavam cada vez mais pesadas e a respiração mais e mais difícil. Olhei para trás e a Fê estava bem longe. Pra complicar, a fumarola tóxica tinha mudado de lado e estava vindo em nossa direção. Não dava mais: pedi pra sair. Fernanda também estava a ponto de desistir. O guia perguntou se estávamos bem; tirando a exaustão, estávamos. Pelo rádio, ele chamou outro guia, que estava mais à frente (nós tínhamos ficado um pouco para trás) para nos ajudar a descer. E outra pessoa acabou desistindo, e ia descer com ele. Cinco baixas no total, em um grupo de treze pessoas.

... e esses caras assim! Como pode?!

16
nov
10

Pucón

Para se ir de Chillán a Pucón deve-se seguir a Pan Am no sentido sul até uma cidade chamada Freire, a 27 quilômetros de Temuco, capital da região de Araucania, onde nada há para ver. Em Freire toma-se a Ruta 199, e aí são mais 88 quilômetros até Pucón. É uma estrada bonita, de mão dupla, que, quando chega a Villarrica, contorna a orla do lago de mesmo nome, formando uma bela paisagem.

O lago Villarrica

Interessante é que, enquanto as rodovias principais do Chile são conhecidas pelos números respectivos, as estradas secundárias e vicinais são conhecidas pelo destino ao qual levam, então a Ruta 199 é mais conhecida como “Camino a Villarrica” (ou “a Freire”, dependendo do sentido que se segue), e você nem deve tentar perguntar pela estrada usando o número, e sim o “nome” dela.

Pucón é um dos polos turísticos que mais cresceu no Chile nos últimos anos, basicamente por causa do Vulcão Villarrica, mas também devido ao lago também chamado Villarrica e das termas que estão nas redondezas. É uma mistura bem acabada de Campos do Jordão com Brotas (cidade de turismo radical e de aventura em São Paulo). É uma cidade muito simpática e charmosa, com construções de madeira muito bonitas e organizadas. Um cheiro permanente de lenha queimando paira no ar, e o vulcão, que está ativo, é quase onipresente.

Fernanda e a placa explicativa do semáforo do Vulcão Villarrica

Uma das coisas que logo nos chamaram a atenção é o semáforo de “Sistema de Alertas de Risco Vulcânico”, em frente à prefeitura, na avenida O’Higgins (você vai ver muito este nome no Chile): ele indica o nível de atividade do Villarrica, indicando, de acordo com a placa explicativa na calçada, luz verde se houver fumarola saindo do vulcão, atividade sísmica subterrânea, rachaduras na neve e odores sulfurosos; amarelo, se os tremores forem mais fortes, a fumarola mais densa e houver pequenos derramamentos de lava; e vermelho, se o bichão tiver resolvido botar pra quebrar. E o sinal ainda dá as instruções de fuga caso o bicho pegue de verdade. Não sei se a intenção era essa, mas ficamos meio assustados.

Depois do check in no hotel fomos informados que o dia seguinte teria condições meteorológicas perfeitas para a subida ao vulcão, que era o nosso principal objetivo em Pucón. Isso porque só se sobe o Villarrica quando dá, ou seja, quando o clima deixa – chuva e neblina inviabilizam qualquer tentativa de se chegar perto da montanha. Fizemos o teste do equipamento, fomos comprar água, comida e protetor solar para a subida e tratamos de dormir cedo, porque a saída estava marcada para as seis da manhã.

O vulcão Villarrica tem aproximadamente 2.800 metros de altura, tem o cume coberto de neve e está ativo. Sua última erupção ocorreu em 1984, sem vítimas; a anterior, na noite de ano novo de 1971, deixou cerca de 30 mortos. Para chegar ao topo pega-se uma estrada em boas condições que sobe uma boa parte do caminho, aproximadamente 1.200 metros. Para subir os 1.600 metros restantes, depende da estação do ano: até o fim de setembro, quando a temporada de esqui ainda está aberta, é possível usar um teleférico que leva a uma base avançada, a quase dois mil metros de altura. Se, porém, a estação tiver terminado, a única alternativa é ir andando mesmo. Como estamos em novembro, tivemos de caminhar.

O vulcão Villarrica, às 5 e meia da manhã

Eu confesso que estava preocupado, desde o dia anterior. Imaginava a possibilidade de acontecer um acidente por não saber como andar na neve, se eu suportaria o frio, ou se aguentaria o esforço da caminhada, que tinha previsão de, no mínimo, seis horas, só para subir (seriam oito a dez horas no toral). A Fê, por outro lado, era pura empolgação, e me ajudou bastante a não desistir antes mesmo de começar.




Quem manda na área

Carioca nascido em Brasília, 36 anos, o pai do João Guilherme. Conhecido à boca miúda como o "Oráculo dos anos 80", que, para mim, não tiveram nada de "década perdida", sou destemido e temido nos quiz e joguinos de perguntas e respostas. Também sou viciado em cultura inútil. Vascaíno, adoro sorvete de creme e detesto camarão.

Mantra:

Nunca duvide da mediocridade humana - para baixo não há limites!

A foto do cabeçalho é…

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maio 2012
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