Doação de sangue é um gesto de caridade e amor ao próximo que não custa nada. Não dói e você perde, sei lá, no máximo uma hora para realizar todo o procedimento. Eu já doei sangue algumas vezes, e sempre foi facil achar minhas veias e meu sangue sai sem dificuldades. Mas em em todas elas acontecem invariavelmente duas coisas: 1) eu fico com uma gratificante sensação de dever cumprido; 2) eu sempre desmaio.
Antigamente eu desmaiava só de colher sangue para um simples hemograma. Não é nojo nem medo, é alguma reação fisiológica. Simplesmente as forças somem e eu caio duro – e já me machuquei algumas vezes por causa disso. Com o tempo, os desmaios nos exames de sangue acabaram, mas os das doações não. E isso já me colocou em algumas situações constrangedoras.
A última delas foi em uma campanha de doação de sangue organizada pelo Trabalho em parceria com o Hemo Rio. Eu fui lá colaborar. E acabei dando o maior vexame.
Logo que eu sentei na cadeira de doação, avisei para a enfermeira que eu possivelmente desmaiaria quando acabasse. Ela, por precaução, reclinou o encosto de modo que eu ficasse deitado, para reduzir o risco. Funcionou por um tempo, mas logo logo eu comecei a perceber que ia desmaiar. Avisei a enfermeira, que me colocou praticamente de cabeça para baixo, com os pés para cima. Serviu para terminar a doação, mas o pior ainda estava por vir.
Levantei e, enquanto caminhava para a mesinha onde estava servido o lanche, vi que ia desabar de vez. Com muito custo consegui puxar uma cadeira, mas àquela altura eu já era. Outro enfermeiro, percebendo meu estado, me socorreu e, com a ajuda de um colega, me carregou para uma maca, depois de afrouxar a minha gravata – isso no saguão do predio do trabalho, com várias pessoas na fila e centenas passando pelo lugar. Nisso, algumas pessoas que estavam na fila desistiram e foram embora, provavelmente assustadas com a cena patética.
Mas nada é tão ruim que não possa piorar. A maca onde eu fiquei me recuperando ficava atrás de um biombo, mas do outro lado havia um vidro enorme, que dava para a área externa do prédio, por onde quase todo mundo que entra nele passa. Quando eu vi, havia um monte de pessoas amontoadas me olhando, assustadas e curiosas. Eu queria morrer.
Claro que tudo acabou bem, e depois de alguns minutos me levantei e saí como se nada tivesse acontecido, tentando resgatar a dignidade ferida. Mas desde aquele dia nunca mais doei sangue.
