Você se lembra do Padre Adelir de Carli, o Padre Voador? Aquele que conduzia e divulgava a Pastoral Rodoviária, entidade religiosa paranaense que prestava auxílio espiritual e moral a caminhoneiros, e resolveu promovê-la fazendo um voo solo com balões infláveis e desapareceu?
Hoje, 3 de julho, faz um ano que um barco de apoio a operações da Petrobras o localizou no litoral do Rio, na altura de Maricá.
A intenção do padre, quando se lançou naquela empreitada, digamos, exótica, foi chamar a atenção da comunidade para a Pastoral, de modo a receber mais doações e angariar fundos para continuar ajudando os caminhoneiros que os procuravam. Só que, francamente, quem, em sã consciência, faria um voo sozinho com balões de encher? E com equipamento que sequer sabe utilizar?! Para quem não se lembra, o padre carregava, dentre outros equipamentos, um GPS para saber sua localização, mas disse à TV, quando decolou, que não fazia a menor idéia de como utilizá-lo.
Pelo plano original, o padre decolaria em Paranaguá e pousaria em Prudentópolis, ambas cidades do interior do Paraná. Mas os ventos e o mau tempo (o padre decolou mesmo com mau tempo) o levaram para o litoral, bem longe do destino escolhido. O padre nunca mais foi visto e o resto é história.
Infelizmente, porém, o tiro saiu pela culatra. Hoje, um ano depois da malfadada aventura, muitos fiéis abandonaram a Pastoral com vergonha de terem virado alvo de chacota. As doações rarearam, o dinheiro minguou, tudo o que resta, hoje, são três caminhões-capela e o padre virou tabu – ninguém fala dele no site da Pastoral.
Acho que o padre teria feito muito mais pela Pastoral, pelos caminhoneiros que ela auxilia e por ele próprio se não tivesse partido naquela viagem. Não consigo compreender em quê quebrar o recorde de permanência no ar suspenso por balões infláveis seria útil para alguém. Pra mim é mais uma daquelas sandices motivadas pela vaidade de figurar no “Livro dos Recordes”, que, aliás, nunca foi táo banalizado pelos recordes mais inúteis que você pode imaginar. Ninguém, neste país sem memória, lembraria do que ele fez e o “recorde” seria simplesmente esquecido.
O padre morreu de forma infeliz e levou com ele a reputação da Pastoral Rodoviária. Hoje, um ano depois de acharem o corpo dele, ninguém mais se lembra de quem ele foi, o que ele fez e o que ele queria. E quando falarem dele as lembranças vão ser as piadas, o ridículo a que ele expôs a si e aos outros. Seu legado, infelizmente, é melancólico.